Cortar emissões pela metade. Gerar muito mais eletricidade. O paradoxo que vai definir o futuro da energia global.

Cortar emissões pela metade. Gerar muito mais eletricidade.

O paradoxo que vai definir o futuro da energia global.

O mundo precisa reduzir emissões de CO2 entre 30 e 50% até 2030 e, ao mesmo tempo, ampliar em pelo menos 40% a geração de eletricidade até 2035. Esses dois objetivos precisam caminhar juntos, mas ainda avançam em velocidades opostas. O paradoxo não é retórica climática: é o desafio central documentado pelo estudo Back to 2050, da Schneider Electric Sustainability Research Institute, e pelo World Energy Outlook 2025 da Agência Internacional de Energia (IEA). Entenda o que está em jogo, como chegamos aqui, o que os principais acordos e leis determinam e por que o Brasil pode ser protagonista.

O contexto: por que energia e clima colidiram agora?

A transição energética existe há décadas como conceito, mas virou urgência operacional a partir de dois momentos-chave. O primeiro foi a assinatura do Acordo de Paris, em 2015, que comprometeu 196 países a limitar o aquecimento global a 1,5 grau Celsius acima dos níveis pré-industriais. O segundo foi a COP28, em Dubai (2023), onde pela primeira vez um texto multilateral acordou a necessidade de transição para fora dos combustíveis fósseis e fixou a meta de triplicar a capacidade global de renováveis até 2030, saindo dos atuais 4.250 GW para ao menos 11.000 GW.

O que tornou a equação mais complexa foi o crescimento acelerado da demanda elétrica global, impulsionado por fatores que não existiam na mesma escala em 2015: a explosão dos data centers alimentados por inteligência artificial, a eletrificação dos transportes, a industrialização acelerada de economias emergentes e recordes consecutivos de temperatura que aumentaram o consumo de climatização. Segundo o Global Energy Review 2025 da IEA, em 2024 o setor de eletricidade registrou alta de 4,3% na demanda global, quase o dobro da média anual da última década. Foram adicionados 700 GW de nova capacidade renovável, novo recorde pelo 22o ano consecutivo, e renováveis mais nuclear responderam por 80% do crescimento na geração de eletricidade em 2024.

É dentro desse contexto que emergem os dois números que sintetizam o desafio da década: emissões precisando cair entre 30 e 50% até 2030 e geração elétrica precisando crescer pelo menos 40% até 2035. Como aponta o estudo da Schneider Electric, e confirmam os cenários do IEA, não se trata de uma contradição: trata-se da equação que define se a transição energética sera bem-sucedida ou não.

O que dizem os acordos, as leis e os marcos regulatórios?

A arquitetura regulatória global começa pelo Acordo de Paris, ratificado pelo Brasil em 2016. O tratado não estabelece punições diretas por descumprimento, mas criou um sistema de pressão reputacional, financeira e diplomática que se tornou crescentemente efetivo. A União Europeia traduziu o compromisso climático em legislação vinculante com a Diretiva de Energias Renováveis (RED III), que exige 42,5% de renováveis na matriz de energia final da UE até 2030, com metas setoriais específicas para indústria, transporte e aquecimento.

Nos Estados Unidos, o Inflation Reduction Act (IRA) de 2022 alocou US$ 369 bilhões em incentivos para energia limpa, o maior investimento climático da história americana, com créditos tributários para solar, eólica, armazenamento, veículos elétricos e eficiência energética. Em 2023, os Estados Unidos instalaram mais de 32 GW de capacidade solar, recorde histórico.

No Brasil, o marco regulatório é composto pelo Novo Marco Legal do Gás (Lei 14.134/2021), pela Lei do Combustível do Futuro (Lei 14.993/2024), que instituiu mandatos para biocombustíveis e biometano, e pelo Plano Decenal de Energia 2035 (PDE 2035), que projeta a expansão de mais de 50 GW em renováveis até o fim da década. A NDC brasileira revisada em 2023 prevê redução de 48% das emissões de gases de efeito estufa até 2025, 53% até 2030 e carbono neutro até 2050.

O cenário regulatório global converge para um consenso: a eletricidade limpa é o vetor central da descarbonização, e as redes elétricas precisam ser modernizadas, ampliadas e inteligentes para suportar essa transição.

A equação em números: menos emissões, muito mais eletricidade

O estudo Back to 2050 da Schneider Electric Sustainability Research Institute estabelece que, para manter o aquecimento global dentro do limite de 1,5 grau Celsius do Acordo de Paris, as emissões de CO2 precisam ser reduzidas entre 30 e 50% ate 2030 e zeradas ate 2050. O estudo enfatiza que mais da metade das reduções necesssárias vira de mudancas no lado da demanda, com eficiência energética como “primeiro combustível” da transição.

Ao mesmo tempo, o World Energy Outlook 2025 da IEA documenta que a demanda global de eletricidade crescerá cerca de 40% até 2035 no cenário STEPS (políticas declaradas) e mais de 50% no cenário NZE (net zero 2050). Os vetores são claros: o IEA projeta que o consumo de eletricidade por data centers pode triplicar até 2035, chegando a aproximadamente 945 TWh, frente a cerca de 415 TWh em 2024, conforme aponta o relatório Energy and AI da IEA. A eletrificação do transporte segue acelerada: em 2024, 1 em cada 5 carros vendidos no mundo era elétrico, com vendas crescendo mais de 25% em relação a 2023.

A dimensão dos investimentos necessários é igualmente impressionante. Em 2024, os investimentos globais na transição energética atingiram o recorde de US$ 2,4 trilhões, alta de 20% em relação à média dos dois anos anteriores, segundo relatório conjunto da IRENA e Climate Policy Initiative (CPI) publicado em novembro de 2025. Desse total, US$ 807 bilhões foram para tecnologias renováveis, com US$ 554 bilhões apenas para energia solar fotovoltaica, alta de 49%. Um alerta importante: 90% desses investimentos se concentraram nas economias avançadas e na China, deixando países em desenvolvimento com acesso limitado ao capital para a transição.

Cortar emissões pela metade. Gerar muito mais eletricidade.

O gargalo que ninguém quer ver: as redes elétricas ficando para trás

Há um dado do IEA que deveria estar em todo plano energético nacional: para cada dólar investido em geração renovável, apenas 60 centavos são destinados às redes elétricas e ao armazenamento. A agência é direta: esse desequilíbrio precisa ser corrigido para uma proporção de 1:1 antes da década de 2040 para que a descarbonização do setor elétrico ocorra de forma segura. Enquanto o investimento em geração cresceu quase 70% desde 2015 para US$ 1 trilhão por ano, os gastos com redes subiram menos da metade desse ritmo, chegando a US$ 400 bilhões anuais, conforme aponta o WEO 2025 da IEA.

O resultado começa a aparecer em forma de congestionamentos na transmissão, filas de projetos eólicos e solares aguardando conexão e curtailment, o corte forçado de geração limpa por falta de capacidade de escoamento. No Brasil, o curtailment atingiu em janeiro de 2026 o maior nível histórico, com 2,86 TWh de cortes, alta de 45% em relação a dezembro de 2025, segundo dados da ePowerBay.

A modernização das redes exige três pilares simultâneos: digitalização, com sensores, automação e gestão inteligente em tempo real; armazenamento de energia, especialmente baterias de grande escala cujos custos seguem em queda; e flexibilidade da demanda, que permite que grandes consumidores ajustem seu consumo conforme a disponibilidade de energia renovável, reduzindo picos e aumentando a eficiência do sistema.

O Brasil no centro do paradoxo: vantagens reais e desafios urgentes

O Brasil ocupa uma posição singular no contexto global. Em 2024, 88,2% da matriz elétrica nacional veio de fontes renováveis, segundo o Balanço Energético Nacional 2025 (BEN 2025) da EPE. O setor elétrico brasileiro emitiu apenas 59,9 kg CO2 eq por MWh em 2024, cerca de 4 vezes menos que países europeus da OCDE e 10 vezes menos que a China. A geração solar cresceu 39,6%, chegando a 70,7 TWh, e a eólica atingiu 107,7 TWh. Juntas, solar e eólica já representam 23,7% de toda a geração elétrica nacional.

No front industrial, um estudo realizado pela Schneider Electric em parceria com o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC) e com a consultoria Systemiq, divulgado durante a COP30 em Belém, projeta que o Brasil pode reduzir emissões industriais em até 60% até 2050 no cenário de alta ambição, com potencial de criação de até 760 mil empregos na área de bioenergia até 2030. Isso requer, segundo o estudo, políticas coordenadas de infraestrutura, financiamento e formação de profissionais.

Os desafios são concretos e urgentes. O curtailment de geração eólica e solar cresce na mesma velocidade das novas usinas. A modernização da infraestrutura de transmissão e distribuição demanda investimentos ainda insuficientemente planejados. O acesso ao crédito para projetos de energia limpa enfrenta taxas de juros de dois dígitos, enquanto países europeus e americanos financiam a transição com custo de capital significativamente menor.

Cortar emissões pela metade. Gerar muito mais eletricidade.

O que precisa acontecer até 2030: a agenda concreta

O IEA é direto em sua análise mais recente: há claramente menos ímpeto do que antes por trás dos esforços nacionais e internacionais para reduzir emissões, enquanto os riscos climáticos continuam aumentando. Para que os objetivos do Acordo de Paris se mantenham alcançáveis, quatro frentes precisam avançar de forma simultânea.

  • Investimentos em redes e armazenamento: a proporção atual de US$ 0,60 em redes para cada US$ 1 em geração renovável precisa chegar a 1:1. Isso exige triplicar o investimento anual em redes elétricas, dos atuais US$ 400 bilhões para ao menos US$ 1,2 trilhão por ano.
  • Eficiência energética como prioridade: o estudo Back to 2050 da Schneider Electric aponta que mais de 70% do CO2 ainda pode ser removido com tecnologias já disponíveis. A eficiência energética, combinada com digitalização e eletrificação, pode responder por metade das reduções de emissões necessárias até 2050.
  • Redistribuição dos investimentos: os 90% dos investimentos em transição energética concentrados em economias avançadas e China precisam se redistribuir. Países emergentes, inclusive o Brasil, têm os maiores recursos renováveis e as matrizes mais limpas, mas acessam financiamento a taxas muito superiores. Mecanismos multilaterais como o Just Energy Transition Partnership (JETP) são passos concretos nessa direção.
  • Regulação em ritmo de mercado: no Brasil, isso significa criar o marco regulatório do armazenamento de energia, estabelecer mecanismos de remuneração para a flexibilidade das redes, avançar na abertura do mercado livre para consumidores de baixa tensão e resolver o gargalo de curtailment com regras claras de compensação para os geradores.

Painel de Dados: A Equação Global da Energia 2024-2040

Painel de Dados A Equação Global da Energia 2024-2040

A Era da Eletricidade chegou, mas ainda não para todos

O paradoxo é real, mas não é irresolvível. A história da energia ja viveu transições igualmente radicais: do carvão ao petróleo, do petróleo ao gás. O que torna esta diferente é a velocidade exigida e a escala de coordenação necessária. Reduzir entre 30 e 50% das emissões enquanto se ampliam em 40 ou 50% a geração elétrica não é uma contradição: é uma equação que só tem uma solução, eletricidade cada vez mais limpa, redes cada vez mais inteligentes e investimentos cada vez melhor direcionados.

Fatih Birol, diretor executivo da IEA, sintetizou o cenário atual ao apresentar o WEO 2025: há menos momentum do que antes, mas os dados mostram que a Era da Eletricidade chegou de vez. O mundo gerou mais eletricidade limpa em 2024 do que em qualquer outro ano da história. Mas emissões globais também bateram recorde, chegando a 38 gigatoneladas de CO2, o maior nível já registrado.

O Brasil tem o ativo mais valioso desse novo mundo: uma matriz elétrica já majoritariamente renovável, recursos naturais abundantes e uma NDC ambiciosa que o posiciona como protagonista da COP30 em Belém. Mas ter o ativo não basta. É preciso modernizar as redes, resolver o curtailment, abrir o crédito e criar as condições regulatórias para que os recursos disponíveis se transformem em usinas, empregos e quilowatts entregues com confiabilidade.

O relógio não negocia. A cada ano sem ação coordenada, a equação fica mais difícil de fechar. E o custo de não agir não será medido em centavos por kilowatt-hora: sera medido em graus Celsius.