O crescimento da demanda por combustíveis no Brasil e o desafio estratégico da transição energética

O crescimento da demanda por combustíveis no Brasil e o desafio estratégico da transição energética

A edição de abril de 2026 das Perspectivas para o Mercado Brasileiro de Combustíveis no Curto Prazo, publicada pela Empresa de Pesquisa Energética, traz um sinal relevante para quem acompanha o setor de energia no Brasil: a demanda nacional por combustíveis líquidos e GLP deve crescer mais de 3 bilhões de litros em 2026 e repetir expansão semelhante em 2027. Segundo a própria EPE, esse avanço reflete o dinamismo da atividade econômica e a vitalidade do mercado interno.

O dado merece atenção porque vai além de uma leitura conjuntural de consumo. Ele aponta para uma realidade estrutural do país: mesmo em um cenário de expansão das fontes renováveis, eletrificação gradual de usos finais e amadurecimento da agenda ESG, o Brasil continuará demandando volumes expressivos de combustíveis líquidos no curto prazo. Essa constatação não enfraquece a transição energética. Ao contrário, torna mais clara a necessidade de uma transição pragmática, planejada e conectada à infraestrutura real da economia.

De acordo com a tabela consolidada da EPE, o mercado total considerado no estudo, composto por óleo diesel total, gasolina C, etanol hidratado, querosene de aviação e GLP, deve passar de 162,0 bilhões de litros em 2025 para 165,3 bilhões de litros em 2026 e 168,7 bilhões de litros em 2027. Em termos percentuais, a projeção indica crescimento de 2,0% em 2026 e mais 2,0% em 2027.

Essa expansão não ocorre de maneira homogênea entre os diferentes produtos. O óleo diesel total segue como principal componente da demanda, com projeção de 72,0 bilhões de litros em 2026 e 73,7 bilhões de litros em 2027. A gasolina C deve alcançar 47,7 bilhões de litros em 2026 e 48,3 bilhões de litros em 2027. O etanol hidratado, por sua vez, aparece com expectativa de 23,6 bilhões de litros em 2026 e 24,4 bilhões de litros em 2027, enquanto o querosene de aviação deve avançar de 7,5 bilhões para 7,7 bilhões de litros no mesmo período.

No caso do GLP, a leitura exige atenção específica. A EPE projeta demanda de 8,0 milhões de toneladas em 2026 e manutenção desse patamar em 2027. A publicação também destaca a influência do programa Gás do Povo, associado à ampliação do acesso ao botijão para famílias de baixa renda, como um dos vetores de crescimento do consumo em 2026. Segundo o Ministério de Minas e Energia, o programa busca atender mais de 15 milhões de famílias e prevê a distribuição de 65 milhões de botijões por ano.

Esse ponto é central para a análise energética brasileira. O GLP não pode ser observado apenas como uma variável de mercado. Ele também compõe a agenda de inclusão energética, segurança alimentar, saúde pública e qualidade de vida. Em muitas famílias, o acesso ao gás de cozinha reduz a dependência de fontes mais precárias para preparo de alimentos. Portanto, quando a demanda por GLP cresce, há também uma dimensão social envolvida que precisa ser considerada no desenho de políticas públicas e na avaliação da matriz energética.

Ao mesmo tempo, a projeção reforça uma tensão comum em economias emergentes: a transição energética precisa conviver com crescimento de demanda. Países como o Brasil não podem simplesmente importar uma narrativa de substituição acelerada sem considerar renda, logística, infraestrutura, território e perfil produtivo. O avanço das renováveis é indispensável, mas a segurança de abastecimento continua sendo condição básica para a estabilidade econômica.

O diesel é o exemplo mais evidente dessa realidade. Seu peso na matriz de combustíveis está diretamente relacionado ao transporte de cargas, à agropecuária, à mineração, à construção civil e à logística de distribuição de bens. Quando a demanda por diesel cresce, ela muitas vezes sinaliza atividade econômica, circulação de mercadorias e investimento em obras. Mas também evidencia o tamanho do desafio de descarbonizar o transporte pesado, segmento em que a eletrificação ainda enfrenta barreiras técnicas, econômicas e operacionais relevantes.

Nesse contexto, biocombustíveis, biometano e soluções híbridas ganham importância estratégica. A discussão não está limitada à troca de uma tecnologia por outra, mas à construção de um portfólio de rotas de descarbonização. O Brasil tem vantagens competitivas relevantes nesse campo, especialmente pela experiência acumulada com etanol, biodiesel, bioenergia e aproveitamento de resíduos agroindustriais. A questão é transformar esse potencial em escala, previsibilidade regulatória e capacidade de investimento.

A gasolina C e o etanol hidratado também revelam a especificidade brasileira. A presença do etanol na matriz veicular torna o país uma referência internacional em combustível renovável para veículos leves. Ao projetar crescimento tanto para gasolina C quanto para etanol hidratado, a EPE indica que o ciclo Otto continuará relevante no curto prazo, mas com espaço para competição entre combustíveis, influência de preços relativos, renda disponível, safra sucroenergética e política de mistura. A própria publicação considera gasolina C e etanol hidratado como combustíveis do ciclo Otto, sem incluir o GNV nessa categoria.

Para investidores e empresas do setor, esse cenário traz uma mensagem clara: o mercado brasileiro de combustíveis segue em expansão, mas essa expansão será cada vez mais analisada sob o filtro da eficiência, da intensidade de carbono e da segurança energética. Não basta projetar volume. Será necessário compreender a qualidade dessa demanda, sua origem, sua elasticidade e sua compatibilidade com compromissos climáticos e regulatórios.

A aviação é outro ponto relevante. O querosene de aviação deve crescer no horizonte de curto prazo, acompanhando a recuperação e expansão do transporte aéreo. Esse movimento ocorre em um momento em que o setor global discute o avanço dos combustíveis sustentáveis de aviação, conhecidos como SAF. Para o Brasil, essa pode ser uma oportunidade industrial e energética, considerando a disponibilidade de biomassa, resíduos e rotas tecnológicas associadas à produção de combustíveis de menor intensidade de carbono.

No entanto, a expansão da demanda por QAV também reforça a importância de planejamento. A aviação é um setor de difícil abatimento de emissões, com limitações mais severas para eletrificação em larga escala. Por isso, políticas de incentivo, certificação de sustentabilidade, infraestrutura logística e integração com cadeias produtivas nacionais serão fatores decisivos para transformar potencial em competitividade.

A leitura transversal do relatório da EPE mostra que o Brasil vive uma fase em que crescimento econômico, inclusão energética e transição de baixo carbono precisam ser tratados de forma integrada. O aumento projetado de mais de 3 bilhões de litros por ano não deve ser interpretado como contradição automática à agenda climática. Ele deve ser lido como um chamado ao planejamento. A demanda existe, seguirá crescendo e precisará ser atendida com maior eficiência, menor intensidade de carbono e mais inteligência regulatória.

Essa é uma diferença importante. Uma visão simplificada da transição energética tende a opor combustíveis e renováveis como se fossem campos isolados. Na prática, o sistema energético opera por interdependência. A eletricidade renovável avança, mas a mobilidade, a indústria, o agronegócio, a logística, a aviação e o consumo residencial ainda dependem de múltiplas fontes. O desafio está em reduzir emissões sem comprometer abastecimento, competitividade e inclusão.

A própria natureza da publicação da EPE confirma essa necessidade. Segundo a empresa, as Perspectivas para o Mercado Brasileiro de Combustíveis no Curto Prazo são uma publicação bimestral que apresenta projeções para vendas mensais dos principais derivados de petróleo e biocombustíveis pelas distribuidoras no Brasil, com o objetivo de reduzir assimetrias de informação e fornecer subsídios à tomada de decisão dos agentes do setor de energia.

Para o setor privado, esse tipo de informação é essencial. Distribuidoras, produtores, geradores, comercializadores, operadores logísticos, investidores e formuladores de projetos precisam de previsibilidade para tomar decisões de capital. A expansão da demanda por combustíveis líquidos e GLP afeta infraestrutura de armazenamento, transporte, importação, produção nacional, formação de estoques, contratos, preços e estratégias de diversificação energética.

Para o poder público, o relatório também oferece insumos relevantes. A política energética precisa equilibrar objetivos que nem sempre caminham no mesmo ritmo: modicidade de preços, segurança de suprimento, arrecadação, inclusão social, redução de emissões, desenvolvimento regional e atração de investimentos. A qualidade do planejamento está justamente em reconhecer essas tensões e construir instrumentos capazes de orientar o mercado sem gerar rupturas desnecessárias.

O avanço do GLP sob influência de programas sociais é um exemplo concreto. A demanda adicional pode fortalecer a inclusão energética, mas também exige atenção a logística, orçamento, abastecimento e monitoramento de impactos. Da mesma forma, o crescimento do diesel pode refletir uma economia mais ativa, mas demanda políticas consistentes para renovação de frota, eficiência no transporte, ampliação ferroviária, biocombustíveis avançados e uso de biometano em corredores logísticos.

O crescimento da demanda por combustíveis no Brasil e o desafio estratégico da transição energética

No campo ESG, o dado da EPE também deve ser interpretado com maturidade. Empresas com metas climáticas não podem ignorar o aumento projetado do consumo de combustíveis. Devem, ao contrário, incorporar esse cenário em suas análises de risco, planejamento de suprimento, inventários de emissões, estratégias de mitigação e decisões de investimento. A agenda ESG mais robusta é aquela que parte de dados reais, não de narrativas convenientes.

Isso significa que o crescimento da demanda por combustíveis no Brasil impõe uma agenda de transição energética mais sofisticada. O país não parte de uma matriz igual à de economias altamente dependentes de carvão, nem de uma infraestrutura plenamente eletrificada. O Brasil possui uma matriz elétrica majoritariamente renovável, ampla experiência em biocombustíveis e grande potencial para biogás, biometano, hidrogênio de baixo carbono e combustíveis sustentáveis. Mas também possui desafios logísticos, desigualdades regionais e forte dependência rodoviária.

A oportunidade está em usar essas características de forma estratégica. O aumento da demanda pode estimular investimentos em combustíveis renováveis, eficiência energética, infraestrutura de baixo carbono e substituição gradual de fontes mais emissoras. Pode também fortalecer cadeias nacionais vinculadas ao agronegócio, saneamento, resíduos, indústria química e transporte. Mas isso dependerá de regulação estável, sinal econômico adequado e coordenação entre planejamento energético, política industrial e compromissos climáticos.

A projeção da EPE para 2026 e 2027, portanto, não deve ser vista apenas como um número de mercado. Ela é um retrato da economia real brasileira. Mostra um país que cresce, consome, transporta, cozinha, voa, produz e se movimenta. Ao mesmo tempo, mostra um país que precisa acelerar a transição sem perder de vista a segurança energética.

O desafio dos próximos anos será qualificar esse crescimento. A demanda adicional por combustíveis líquidos e GLP virá. A questão estratégica é como atender essa demanda com mais eficiência, maior participação de alternativas renováveis, melhor infraestrutura e menor intensidade de carbono. Para o Brasil, a transição energética não será construída pela negação da realidade, mas pela capacidade de transformá-la com planejamento, tecnologia e visão de longo prazo.