Transição energética: o Brasil diante de uma transformação estrutural da economia global

Transição energética: o Brasil diante de uma transformação estrutural da economia global

Entre vantagem comparativa, desafios regulatórios e a corrida pela liderança em energia limpa

Falar em transição energética deixou de ser um exercício prospectivo para se tornar uma discussão concreta sobre competitividade econômica, segurança energética e posicionamento geopolítico. O tema, que há pouco mais de uma década orbitava majoritariamente relatórios acadêmicos e fóruns multilaterais, hoje está no centro das decisões de governos, empresas, investidores e organismos reguladores. No Brasil, essa discussão ganha contornos ainda mais relevantes diante de uma matriz elétrica majoritariamente renovável, mas que, por si só, não garante liderança automática na economia de baixo carbono que está em construção.

A transição energética pode ser definida como o processo de transformação estrutural dos sistemas de produção, distribuição e consumo de energia, com o objetivo de reduzir emissões de gases de efeito estufa, aumentar a eficiência energética e substituir fontes fósseis por alternativas renováveis e de baixo carbono. Trata-se de uma mudança sistêmica, que envolve infraestrutura, tecnologia, regulação, financiamento e, sobretudo, visão estratégica de longo prazo.

Relatórios sucessivos do IPCC deixam claro que o setor energético responde por cerca de três quartos das emissões globais de gases de efeito estufa. Sem uma transformação profunda na forma como o mundo produz e consome energia, os compromissos climáticos assumidos no Acordo de Paris tornam-se inalcançáveis. A transição energética, portanto, não é apenas uma agenda ambiental, mas um eixo central de reorganização da economia global.

O cenário internacional e a aceleração da transição

Nos últimos anos, a transição energética ganhou velocidade impulsionada por uma combinação de fatores. A queda expressiva dos custos de tecnologias como solar fotovoltaica e eólica onshore, amplamente documentada pela IRENA, reduziu barreiras econômicas que antes limitavam a expansão das renováveis. Paralelamente, crises geopolíticas recentes reforçaram a importância da segurança energética e da diversificação de fontes, especialmente em países altamente dependentes de importações de combustíveis fósseis.

Segundo dados da Agência Internacional de Energia, mais de 80% da nova capacidade de geração elétrica adicionada globalmente em 2023 veio de fontes renováveis. A eletrificação de setores tradicionalmente intensivos em carbono, como transporte e parte da indústria, passou a ser vista como caminho inevitável para a descarbonização. Veículos elétricos, bombas de calor, produção de hidrogênio verde e processos industriais eletrificados deixaram de ser exceção para se tornarem vetores centrais da política energética de países desenvolvidos e emergentes.

Nesse contexto, a transição energética se consolida como um processo competitivo. Países que conseguirem estruturar ambientes regulatórios estáveis, infraestrutura adequada e cadeias produtivas locais tendem a capturar os maiores benefícios econômicos da nova economia energética. A disputa não se dá apenas por capacidade instalada, mas por tecnologia, investimentos, empregos qualificados e protagonismo industrial.

A posição singular do Brasil

O Brasil parte de uma posição singular nesse cenário. Mais de 85% de sua matriz elétrica é composta por fontes renováveis, com destaque para a geração hidrelétrica, a expansão consistente da energia eólica e solar, além da biomassa. Poucos países no mundo apresentam uma base elétrica tão limpa em larga escala, o que confere ao país uma vantagem comparativa relevante no debate internacional.

Estudos da Empresa de Pesquisa Energética, disponíveis em publicações como o Plano Decenal de Expansão de Energia, mostram que o crescimento das fontes renováveis continuará sendo o principal vetor de expansão da oferta elétrica brasileira na próxima década. A energia solar, tanto na geração centralizada quanto na distribuída, tem apresentado taxas de crescimento de dois dígitos ao ano, enquanto a energia eólica segue avançando com projetos cada vez mais eficientes e competitivos.

No entanto, transformar essa vantagem comparativa em liderança efetiva exige enfrentar desafios estruturais que vão além da geração. A expansão acelerada das renováveis intermitentes impõe pressões sobre o sistema de transmissão, demanda soluções de armazenamento e exige maior flexibilidade operativa. Gargalos na infraestrutura de escoamento de energia já são uma realidade em algumas regiões, especialmente no Nordeste, onde se concentra grande parte da nova capacidade eólica e solar.

Transição energética: o Brasil diante de uma transformação estrutural da economia global

Bioenergia, biogás e economia circular

Um dos diferenciais brasileiros na transição energética está na bioenergia. A integração entre agronegócio, saneamento, gestão de resíduos e geração de energia cria oportunidades únicas para o desenvolvimento do biogás e do biometano. Diferentemente de outras fontes renováveis, o biogás oferece previsibilidade, capacidade de despacho e potencial de substituição direta de combustíveis fósseis em setores como transporte pesado e indústria.

Dados divulgados por associações setoriais indicam que o potencial técnico de produção de biometano no Brasil poderia substituir parcela significativa do consumo nacional de diesel e gás natural. Além da redução de emissões, trata-se de uma agenda alinhada à economia circular, ao aproveitamento de resíduos e à geração de valor local, especialmente em regiões rurais.

Apesar do potencial, o desenvolvimento desse mercado ainda enfrenta desafios regulatórios, de escala e de acesso a financiamento. A ausência de sinais econômicos claros para a precificação de carbono e a necessidade de contratos de longo prazo são temas recorrentes no debate setorial. Ainda assim, o avanço de projetos estruturados e o interesse crescente de investidores indicam que a bioenergia tende a ocupar papel mais relevante na transição energética brasileira.

Hidrogênio verde e novas fronteiras

Outro vetor que vem ganhando espaço na agenda energética é o hidrogênio verde. Produzido a partir de eletrólise da água com eletricidade renovável, o hidrogênio de baixo carbono é visto como solução estratégica para a descarbonização de setores de difícil eletrificação, como siderurgia, química pesada e transporte marítimo.

O Brasil reúne condições naturais favoráveis para se posicionar como fornecedor global desse insumo, combinando abundância de energia renovável, disponibilidade hídrica em determinadas regiões e localização estratégica para exportação. Iniciativas em hubs portuários e acordos de cooperação internacional sinalizam o interesse em estruturar essa cadeia. No entanto, a viabilidade econômica do hidrogênio verde ainda depende de escala, redução de custos tecnológicos e marcos regulatórios claros.

Relatórios da IRENA e da Agência Internacional de Energia apontam que a próxima década será decisiva para definir quais países conseguirão capturar valor nesse mercado emergente. Mais uma vez, a vantagem natural precisa ser acompanhada de políticas públicas consistentes, planejamento integrado e articulação com a indústria nacional.

Regulação, mercado e financiamento

A transição energética não ocorre no vácuo. Ela depende de um arcabouço regulatório capaz de oferecer previsibilidade, segurança jurídica e sinais econômicos adequados. No Brasil, órgãos como a Agência Nacional de Energia Elétrica e o Ministério de Minas e Energia desempenham papel central na condução desse processo, seja por meio de leilões de energia e transmissão, seja na definição de regras para novos mercados.

Nos últimos anos, temas como modernização do setor elétrico, abertura do mercado livre, armazenamento de energia e mercado de carbono passaram a integrar a agenda regulatória. Ao mesmo tempo, investidores institucionais e agentes financeiros incorporaram critérios ESG de forma definitiva em suas decisões. Instrumentos como green bonds, sustainability linked loans e financiamentos atrelados a metas climáticas deixaram de ser exceção para se tornarem parte relevante do financiamento de projetos energéticos.

A pressão por transparência, métricas claras e alinhamento com compromissos climáticos globais tende a se intensificar. Empresas que não incorporarem a transição energética em suas estratégias correm o risco de perder acesso a capital e competitividade no médio prazo.

Transição energética e desenvolvimento

Um dos aspectos mais relevantes e, por vezes, negligenciados da transição energética é sua dimensão social e territorial. A expansão das renováveis tem potencial de promover desenvolvimento regional, gerar empregos qualificados e reduzir desigualdades, desde que acompanhada de políticas adequadas de capacitação, planejamento territorial e diálogo com comunidades locais.

O conceito de transição justa, amplamente discutido em fóruns internacionais, reforça a necessidade de garantir que os benefícios da nova economia energética sejam distribuídos de forma equitativa. No Brasil, onde a geração renovável se concentra em regiões historicamente menos industrializadas, essa agenda assume importância estratégica.

O desafio da liderança

A transição energética não é uma corrida de curto prazo. Trata-se de um processo contínuo, que exige consistência de políticas, coordenação institucional e visão estratégica. O Brasil reúne atributos únicos para se posicionar como protagonista, mas essa liderança não é automática nem garantida.

Transformar potencial em realidade exige enfrentar gargalos históricos, investir em infraestrutura, estimular inovação e construir um ambiente regulatório que ofereça previsibilidade. Mais do que ampliar a capacidade instalada de renováveis, será fundamental integrar energia, indústria, logística e política climática em uma estratégia nacional de desenvolvimento de baixo carbono.

Em um mundo cada vez mais orientado por critérios ambientais, energéticos e geopolíticos, a transição energética deixa de ser apenas uma resposta às mudanças climáticas para se tornar um projeto de país. O debate já não é se a transição ocorrerá, mas quem estará preparado para liderá-la e capturar seus benefícios econômicos, sociais e estratégicos.