Mudanças climáticas começam a alterar premissas do planejamento do setor elétrico brasileiro, ampliando o debate sobre resiliência, infraestrutura, armazenamento, regulação e segurança energética.
O avanço das mudanças climáticas acrescenta uma nova dimensão ao planejamento do setor elétrico brasileiro. Além de reduzir emissões e ampliar a participação das fontes renováveis, o País terá de preparar geração, transmissão, distribuição e operação para secas, chuvas intensas, ondas de calor, incêndios e outros eventos capazes de alterar simultaneamente a oferta, a demanda e a integridade da infraestrutura elétrica. Discussões realizadas nesta semana por ANEEL, ONS e EPE indicam que a adaptação climática começa a ocupar um espaço cada vez mais relevante na agenda técnica e regulatória do setor.
O clima começa a mudar as premissas do planejamento energético
Durante décadas, planejar a expansão e a operação do sistema elétrico significou trabalhar com projeções de crescimento econômico, evolução da demanda, disponibilidade de recursos energéticos, custos tecnológicos, investimentos em infraestrutura e uma série de cenários destinados a lidar com as incertezas naturais de um setor de longo prazo.
As mudanças climáticas acrescentam uma variável particularmente complexa a esse processo. O desafio não está apenas na possibilidade de temperaturas mais elevadas ou de alterações nos volumes médios de precipitação. Está principalmente na combinação entre mudanças graduais e eventos extremos que podem afetar, ao mesmo tempo, geração, redes, demanda por eletricidade e condições de operação.
Essa discussão ganhou visibilidade nesta semana.
No dia 20 de agosto, a Agência Nacional de Energia Elétrica, ANEEL promoveu o evento “Super El Niño e a Resiliência do Setor Elétrico Brasileiro”, reunindo representantes do governo, pesquisadores, agentes do setor e especialistas para discutir os efeitos de eventos climáticos extremos sobre o sistema elétrico e os mecanismos necessários para ampliar sua capacidade de preparação e resposta. A programação incluiu projeções climáticas, operação elétrica, transmissão, planos de contingência das distribuidoras, geração em cenários extremos e coordenação da operação da rede.
Um dia antes, em 19 de agosto, a Empresa de Pesquisa Energética participou da 3ª Semana Regulatória do Operador Nacional do Sistema Elétrico. Segundo a EPE, o encontro tratou dos desafios regulatórios relacionados à transformação do setor elétrico e incluiu a resiliência climática entre os temas centrais das discussões.
A proximidade dos dois debates é significativa porque mostra que a questão climática começa a ultrapassar o campo estritamente ambiental. Ela passa a dialogar diretamente com planejamento energético, confiabilidade, regulação, expansão da infraestrutura e segurança do suprimento.
A questão que se apresenta, portanto, é mais ampla do que a preparação para um determinado fenômeno meteorológico.
O setor elétrico precisará aprender a planejar para um clima que pode não reproduzir, com a mesma regularidade, os padrões observados no passado.
Um sistema renovável, mas profundamente conectado ao clima
O Brasil parte de uma posição singular nessa discussão. A elevada participação de fontes renováveis na geração de eletricidade é uma vantagem estratégica para a transição energética, mas também estabelece uma relação particularmente estreita entre o sistema elétrico e as condições naturais.
De acordo com o Balanço Energético Nacional 2026, publicado pela EPE, as fontes renováveis responderam por 86,8% da matriz elétrica brasileira em 2025. Eólica e solar fotovoltaica, juntas, já representaram 26,4% da geração de eletricidade no País.
Esse processo diversificou uma matriz historicamente marcada pela forte presença da hidreletricidade. A expansão da energia solar, da energia eólica, da biomassa, da geração distribuída e de outras alternativas renováveis reduz a concentração da oferta em uma única fonte e cria novas possibilidades para o atendimento da demanda.
Ao mesmo tempo, a elevada participação de recursos energéticos dependentes de condições naturais faz com que compreender o clima seja cada vez mais importante para compreender o próprio funcionamento do sistema.
No caso da hidreletricidade, alterações nos regimes de chuva podem modificar vazões, afluências aos reservatórios e padrões de armazenamento. O desafio não significa necessariamente que haverá menos água em todas as regiões ou em todos os períodos. Mudanças climáticas podem produzir efeitos diferentes ao longo do território e do ano, incluindo secas mais severas em determinadas áreas, chuvas concentradas, cheias e maior variabilidade hidrológica.
Para um sistema interligado de dimensão continental, essa variabilidade importa.
A EPE já vem incorporando essa questão a seus estudos. Em material dedicado à relação entre hidreletricidade e mudanças climáticas, a empresa informa que o Plano Decenal de Expansão utiliza milhares de cenários hidrológicos para representar diferentes possibilidades futuras e que análises de sensibilidade vêm sendo realizadas para avaliar o comportamento do sistema diante de eventos críticos de escassez hídrica.
Esse movimento é importante porque muda gradualmente uma premissa tradicional do planejamento.
Dados históricos continuarão sendo fundamentais. Mas depender exclusivamente da repetição estatística do passado pode ser insuficiente em um contexto no qual as próprias distribuições de probabilidade associadas a determinados eventos podem estar mudando.
Planejar com risco climático significa, portanto, ampliar o conjunto de cenários considerados e testar a capacidade do sistema de continuar funcionando quando diferentes condições adversas ocorrem.
O desafio não está apenas na geração
Grande parte da discussão pública sobre clima e eletricidade costuma se concentrar na geração. A relação é intuitiva. Falta de chuva afeta hidrelétricas, variações no vento influenciam parques eólicos e mudanças na cobertura de nuvens e temperatura interferem no desempenho de sistemas solares.
Mas a resiliência do sistema elétrico depende de uma cadeia muito mais extensa.
A energia precisa ser gerada, transmitida, distribuída e entregue aos consumidores. Cada uma dessas etapas possui vulnerabilidades específicas.
A rede brasileira de transmissão tem cerca de 190 mil quilômetros e atende mais de 99% da carga elétrica do País, segundo estudo da EPE sobre transmissão e mudanças climáticas. Grande parte dessa infraestrutura é aérea e permanece exposta continuamente às condições ambientais.
Chuvas intensas podem provocar alagamentos, movimentos de solo e dificuldades de acesso a instalações. Ventos severos podem afetar estruturas e lançar vegetação ou objetos sobre redes. Queimadas elevam riscos nas proximidades das linhas. Descargas atmosféricas, temperaturas extremas e tempestades representam desafios adicionais para equipamentos e para a operação.
Na distribuição, a proximidade das redes com árvores, edificações, vias e áreas densamente ocupadas amplia a diversidade dos riscos.
Em uma situação extrema, o problema não termina quando a chuva para ou quando os ventos diminuem. É necessário acessar as áreas afetadas, identificar danos, substituir equipamentos, mobilizar equipes e restabelecer o fornecimento com segurança. Quando estradas estão interrompidas ou regiões permanecem alagadas, a recuperação pode se tornar mais complexa.
Os eventos que atingiram o Rio Grande do Sul entre abril e maio de 2024 mostraram de maneira concreta essa dimensão sistêmica. Ao abordar o episódio em seus estudos de resiliência, a EPE registra que as fortes chuvas e inundações históricas afetaram aproximadamente 2,4 milhões de pessoas e produziram efeitos também sobre o consumo e a infraestrutura elétrica.
Isso ajuda a explicar por que o debate sobre resiliência precisa avançar da análise do recurso energético para a análise de toda a infraestrutura.
Não basta perguntar quanta energia poderá ser produzida.
Será necessário perguntar também se essa energia poderá chegar aos centros de consumo em diferentes situações climáticas, quais ativos são mais vulneráveis, quanto tempo o sistema leva para se recuperar de uma interrupção e quais redundâncias precisam existir para reduzir os impactos de falhas localizadas.
Ondas de calor criam pressão também pelo lado da demanda
Há ainda outra variável que torna a adaptação climática mais complexa. As condições meteorológicas não afetam somente a oferta de eletricidade. Elas também podem modificar a demanda.
Ondas de calor prolongadas elevam o uso de sistemas de climatização em residências, escritórios, centros comerciais, hospitais, instalações industriais e edifícios públicos. Isso pode criar picos de consumo justamente em períodos nos quais determinados componentes da infraestrutura elétrica também estão submetidos a temperaturas elevadas.
Em dezembro de 2025, EPE, ONS e CCEE publicaram um estudo específico sobre os impactos das mudanças climáticas na demanda de energia elétrica. O documento chama atenção justamente para o aumento das temperaturas e das ondas de calor e para seus possíveis efeitos sobre os picos de demanda relacionados à climatização.
Essa relação acrescenta uma camada importante ao planejamento.
O sistema precisa estar preparado não apenas para alterações na disponibilidade dos recursos utilizados na geração, mas também para mudanças no momento e na intensidade com que a eletricidade será demandada.
A questão ganha relevância adicional à medida que avança a eletrificação da economia. Veículos elétricos, processos industriais eletrificados, data centers, equipamentos digitais e novas cargas tendem a aumentar a importância da eletricidade no consumo energético.
Em outras palavras, quanto mais atividades dependem do sistema elétrico, maior se torna o impacto econômico e social de eventuais interrupções.
Resiliência, nesse contexto, deixa de ser apenas uma característica técnica da rede. Passa a ser um componente da própria segurança econômica.
Diversificação passa a significar também gestão de risco
A diversificação da matriz elétrica brasileira costuma ser analisada principalmente sob duas perspectivas: descarbonização e expansão da oferta.
As mudanças climáticas acrescentam uma terceira: gestão de risco.
Fontes diferentes respondem de maneiras diferentes às condições meteorológicas, possuem perfis distintos de geração e estão distribuídas geograficamente em regiões com características próprias. Um portfólio mais diversificado pode reduzir a exposição do sistema a determinadas condições adversas, desde que essa expansão seja acompanhada por redes, capacidade de controle, planejamento e mecanismos adequados de flexibilidade.
Essa perspectiva amplia o significado estratégico de fontes como solar, biomassa, biogás e outras soluções renováveis.
A geração a partir de biomassa e biogás, por exemplo, possui uma característica importante nesse debate: a possibilidade de geração controlável a partir de recursos armazenáveis, dependendo da configuração do empreendimento e da disponibilidade do combustível. Em um sistema cada vez mais diversificado, tecnologias com diferentes características operacionais podem exercer funções complementares.
Isso não significa que determinada fonte seja, isoladamente, uma resposta ao risco climático.
Todos os recursos possuem vulnerabilidades próprias. A própria EPE vem estudando separadamente os potenciais impactos das mudanças climáticas sobre hidreletricidade, transmissão, geração solar, geração eólica, termelétrica e demanda.
O ponto central é outro.
Resiliência não decorre simplesmente da substituição de uma tecnologia por outra. Ela depende da combinação entre recursos, localização, infraestrutura, capacidade de resposta e diversidade operacional.
Esse entendimento será cada vez mais importante em um sistema com elevada participação de renováveis.
Armazenamento ganha uma função estratégica mais ampla
É nesse cenário que o armazenamento de energia passa a ocupar uma posição particularmente relevante.
Baterias são frequentemente associadas à integração das fontes solar e eólica porque permitem absorver energia em determinados períodos e devolvê-la ao sistema quando necessário. Mas seu papel potencial é mais amplo.
Sistemas de armazenamento podem fornecer flexibilidade operacional, responder rapidamente a alterações de carga e geração, deslocar energia entre diferentes períodos do dia e aumentar as alternativas disponíveis ao operador do sistema.
Essa capacidade ganha valor à medida que a matriz se torna mais diversificada e as condições de operação mais complexas.
O Brasil está justamente avançando na estruturação de seus primeiros leilões específicos para armazenamento em baterias.
Em julho, a ANEEL colocou em consulta pública as minutas dos editais dos primeiros leilões de armazenamento de energia do Brasil. Os certames estão previstos para 2 e 4 de dezembro de 2026, com contratos de 15 anos e início de suprimento em agosto de 2028. Os sistemas deverão ter pelo menos 30 MW de potência, duração de quatro horas e capacidade de atender ao despacho centralizado do ONS.
O Ministério de Minas e Energia também destaca que os equipamentos poderão armazenar eletricidade e entregá-la nos momentos de maior necessidade do sistema, ajudando tanto no atendimento à demanda quanto na gestão de excedentes de geração renovável.
O avanço dessa agenda mostra que a transição energética exige algo além da construção de nova capacidade de geração.
Um sistema seguro precisa ser capaz de movimentar energia no espaço, por meio das redes, mas também cada vez mais no tempo, utilizando armazenamento, gestão da demanda, geração controlável e outros recursos de flexibilidade.
Sob a perspectiva da resiliência climática, essa capacidade torna o sistema mais preparado para operar diante de situações diferentes das originalmente previstas.
A regulação terá de incorporar uma nova leitura de risco
Talvez uma das transformações mais profundas provocadas pela questão climática não esteja nas tecnologias, mas nas regras que orientam investimentos e decisões.
Infraestrutura elétrica é planejada para décadas de operação.
Uma linha de transmissão, uma subestação, uma usina ou outro ativo instalado hoje estará exposto durante muitos anos às condições ambientais do local onde foi construído. Se essas condições estiverem mudando, os parâmetros utilizados para projetar, localizar e operar esses equipamentos também precisarão ser constantemente avaliados.
É nesse ponto que resiliência climática e regulação começam a convergir.
O debate poderá envolver critérios técnicos de projeto, padrões de confiabilidade, redundância de ativos, planejamento de contingência, digitalização, monitoramento, manutenção preventiva, gestão de vegetação, capacidade de recuperação após eventos extremos e reconhecimento econômico de investimentos destinados à adaptação.
A questão econômica é especialmente importante.
Investimentos em resiliência possuem uma característica particular: quando funcionam, muitos de seus benefícios aparecem justamente naquilo que não aconteceu. Uma subestação que permaneceu operacional durante uma inundação, uma rede que conseguiu isolar rapidamente uma falha ou um sistema redundante que evitou uma interrupção de maior escala produzem valor ao reduzir perdas potenciais.
O desafio regulatório é criar condições para que medidas preventivas economicamente justificáveis sejam consideradas antes da ocorrência do dano, sem transformar resiliência em justificativa genérica para qualquer expansão de custos.
Isso exigirá dados melhores, avaliação de risco, métricas e critérios transparentes.
A experiência internacional também aponta nessa direção. O Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas considera entre as medidas de adaptação para infraestrutura energética a revisão de padrões de engenharia, o reforço de instalações existentes, a construção de redundância e robustez e a preparação operacional para manutenção dos serviços diante de eventos extremos.
Não se trata, portanto, apenas de construir infraestrutura mais resistente.
Trata-se de desenvolver sistemas capazes de antecipar riscos, absorver impactos, continuar operando dentro do possível e recuperar suas funções com rapidez.
Planejamento climático já começa a aparecer nas políticas de longo prazo
Os debates de agosto não surgem isoladamente.
Nos últimos anos, a EPE vem estruturando um Roadmap para o Fortalecimento da Resiliência do Setor Elétrico em Resposta às Mudanças Climáticas, desenvolvido no âmbito do Plano de Recuperação dos Reservatórios de Regularização de Usinas Hidrelétricas.
O trabalho reúne uma revisão técnica sobre resiliência climática e uma série de estudos temáticos dedicados a diferentes componentes do sistema elétrico.
Há um avanço ainda mais significativo na proposta do Plano Nacional de Transição Energética.
Entre as ações previstas nos documentos colocados em consulta pelo governo estão a produção e sistematização de informações sobre alterações climáticas, o desenvolvimento de estudos de resiliência do sistema energético, a melhoria de modelos de cenários hidrológicos, a adoção de ferramentas para incorporar dados climáticos ao planejamento e, de forma especialmente relevante, a incorporação do componente de risco climático aos estudos de expansão energética.
Essa evolução sugere uma mudança de método.
Em vez de tratar mudanças climáticas apenas como uma externalidade ambiental da produção de energia, o planejamento começa a reconhecê-las como uma variável capaz de modificar o próprio desempenho futuro dos ativos.
Isso aproxima duas agendas que durante muito tempo foram discutidas separadamente.
De um lado está a mitigação, responsável por reduzir emissões e limitar o avanço do aquecimento global.
De outro está a adaptação, destinada a preparar infraestrutura, instituições e sociedades para impactos que já não podem ser totalmente evitados.
No setor elétrico, as duas são inseparáveis.
Digitalização e informação serão parte da infraestrutura de resiliência
Preparar o sistema para condições climáticas mais complexas não dependerá apenas de novas usinas, baterias ou redes mais robustas.
Dados terão papel crescente nesse processo.
Previsões meteorológicas, monitoramento hidrológico, sensores instalados em equipamentos, imagens de satélite, acompanhamento de vegetação, sistemas de detecção de incêndios, análise das condições de ativos e modelos de previsão de carga podem ampliar a capacidade de antecipar problemas.
A digitalização também permite que a operação responda de maneira mais rápida a alterações da rede.
Quanto maior a visibilidade sobre o comportamento do sistema, maior tende a ser a capacidade de tomar decisões antes que pequenas ocorrências se transformem em falhas de maior dimensão.
Isso muda a lógica dos investimentos.
Resiliência física e inteligência operacional deixam de ser caminhos separados. Uma infraestrutura mais resistente precisa ser acompanhada por sistemas capazes de identificar risco, avaliar alternativas e coordenar recursos.
Também cresce a importância da integração de informações entre planejamento energético e ciência climática.
Projeções climáticas são cercadas por incertezas, sobretudo quando analisadas em escala regional e para horizontes longos. Mas incerteza não significa ausência de informação.
Para o planejamento energético, o objetivo não será prever exatamente como estará o clima em determinado dia daqui a vinte anos. Será compreender um conjunto suficientemente amplo de futuros plausíveis para verificar se o sistema permanece seguro em diferentes condições.
Essa diferença é fundamental.
Resiliência não exige certeza sobre o futuro. Exige preparação para diferentes futuros possíveis.
Transição energética também significa adaptação
Durante muitos anos, a relação entre energia e mudanças climáticas foi discutida principalmente a partir das emissões de gases de efeito estufa.
Essa agenda permanece central.
O setor energético continua sendo decisivo para a descarbonização da economia mundial, e ampliar fontes de baixa emissão, eficiência energética, eletrificação e tecnologias limpas seguirá sendo essencial para limitar o aquecimento global.
Mas uma segunda dimensão ganha importância rapidamente.
O próprio sistema responsável por viabilizar a transição energética terá de ser adaptado aos impactos do clima.
Uma matriz elétrica mais limpa não é automaticamente uma matriz resiliente.
Usinas renováveis precisam estar conectadas a redes capazes de transportar sua energia. Linhas e subestações precisam suportar condições ambientais compatíveis com sua vida útil. A operação precisa lidar com variações de oferta e demanda. Sistemas de armazenamento e outros recursos de flexibilidade precisam estar disponíveis quando necessários. Distribuidoras precisam ter planos de contingência capazes de responder a eventos extremos.
Acima de tudo, o planejamento precisa incorporar uma premissa nova: o comportamento climático do futuro pode não repetir integralmente aquele que serviu de referência para a construção do sistema existente.
Os debates realizados nesta semana pela ANEEL, pelo ONS e pela EPE são relevantes justamente porque colocam essa questão dentro da agenda institucional do setor elétrico.
O Super El Niño pode ser o gancho imediato. O tema estrutural, porém, é maior.
O Brasil precisará continuar expandindo uma matriz elétrica de baixo carbono, mas também deverá aumentar sua capacidade de operar sob secas, chuvas intensas, ondas de calor, incêndios, variações hidrológicas e outros eventos capazes de pressionar a infraestrutura de maneiras diferentes e, muitas vezes, simultâneas.
Isso envolve investimentos, tecnologia, regulação e coordenação institucional. Envolve ainda uma mudança na própria maneira de compreender segurança energética.
No século passado, boa parte da infraestrutura foi projetada a partir da experiência acumulada sobre como o clima normalmente se comportava.
Nas próximas décadas, segurança e confiabilidade dependerão cada vez mais da capacidade de planejar também para aquilo que foge dessa normalidade.
A transição energética brasileira, portanto, não será definida apenas por quais fontes produzirão eletricidade.
Será definida também pela capacidade do sistema de continuar funcionando quando as condições ao seu redor mudarem.







