Descarbonização Sai do Discurso e Entra nas Planilhas: Como Empresas Transformam Metas ESG em Vantagem Competitiva em 2026

Descarbonização Sai do Discurso e Entra nas Planilhas

Redução de emissões de carbono deixou de ser agenda futura e passou a integrar decisões estratégicas no presente. Negócios que adotam fontes renováveis e práticas sustentáveis avançam nas metas ESG, mitigam riscos e fortalecem competitividade no mercado global.

O ano de 2026 marca uma virada definitiva na relação entre empresas e sustentabilidade no Brasil. Depois de anos em que a agenda ESG (ambiental, social e de governança) foi tratada como narrativa institucional ou marketing corporativo, a sustentabilidade corporativa passou a ser analisada sob a lógica de risco, custo e retorno. A descarbonização deixou de ser promessa futura e entrou na planilha, no orçamento e nas decisões estratégicas das organizações.

A transformação em curso não é acidental. Com a Lei nº 15.042/2024 oficializando o mercado regulado de carbono no Brasil, emissões deixam de ser apenas um indicador ambiental e passam a influenciar custos, investimentos, acesso a financiamento e competitividade. O Sistema Brasileiro de Comércio de Emissões (SBCE) estabelece um teto de emissões para setores da economia e transforma esse limite em permissões negociáveis, criando um novo ativo econômico.

O Mercado de Carbono Ganha Forma no Brasil

Enquanto o marco legal foi aprovado em 2024, 2026 é o ano da regulamentação efetiva. O Ministério da Fazenda pretende preparar a economia brasileira para um cenário internacional em que a precificação de carbono seja considerada irreversível. Em janeiro, o governo iniciou a construção da infraestrutura digital que dará sustentação ao SBCE, em parceria entre Serpro e Ministério da Fazenda.

A plataforma em desenvolvimento funcionará como registro central do mercado regulado de carbono, reunindo o relato das emissões de gases de efeito estufa, o acompanhamento das metas de descarbonização e o registro dos ativos financeiros negociáveis. A solução dará suporte à rastreabilidade, à integridade das informações e à segurança jurídica das transações entre os agentes do mercado.

Segundo estimativas do Banco Mundial citadas em análises recentes, as emissões de gás carbônico dos setores regulados poderiam cair 21% até 2040 e 27% até 2050, com o preço da tonelada de carbono podendo chegar a US$ 30 por tonelada, avançando para US$ 60 numa segunda fase.

ESG Mensurável: Da Narrativa aos Números

Uma das mudanças mais significativas em 2026 é o fim da era dos relatórios genéricos. Empresas terão de demonstrar, com dados e não mais com narrativas, o retorno de suas iniciativas. Não se trata apenas de boas práticas ambientais, mas de redução de custos, eficiência operacional, mitigação de riscos e maior estabilidade financeira.

A frase que circula entre especialistas resume bem o momento: “não existe ESG sem Excel”. A era das ações feitas apenas por imagem acabou. Agora, as empresas precisam comprovar impacto, retorno financeiro e eficiência. Investidores, conselhos e reguladores já sinalizam essa mudança, e ações sem comprovação de impacto devem perder espaço no mercado.

A XP Investimentos, em relatório divulgado em dezembro de 2025, aponta que a demanda global por informações ESG mais consistentes e comparáveis tem aumentado, com o amadurecimento das exigências regulatórias e o maior escrutínio dos investidores. A expectativa é que 2026 marque uma nova fase nas regras de divulgação, com foco na implementação e maior preparação das empresas.

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Matriz Energética Renovável Como Diferencial Competitivo

O Brasil parte de uma posição privilegiada na transição energética global. Segundo o Balanço Energético Nacional(BEN) 2025, em 2024 a participação das fontes renováveis foi de até 88,2% — número significativamente superior à média mundial e da OCDE.

Em 1º de janeiro de 2026, o país ultrapassou 215,9 GW de capacidade instalada em usinas centralizadas, segundo dados do SIGA (Sistema de Informações de Geração da ANEEL). Desse total, 84,63% da potência instalada provêm de fontes renováveis, com forte presença de hidrelétricas, eólicas, solares e biomassa. A ANEEL prevê um crescimento de 9,14 GW de potência instalada em 2026, representando um avanço de 23,4% em relação à expansão registrada em 2025.

A expansão das renováveis não é apenas uma questão ambiental, mas estratégica. Em 2026, a energia renovável se consolida como uma ferramenta estratégica para o crescimento empresarial, reduzindo custos operacionais, oferecendo previsibilidade e liberando recursos para investimentos.

Grandes empresas já incorporaram essa visão. A Vale, por exemplo, investiu desde 2025 mais de R$ 7,4 bilhões em descarbonização, visando a redução de 33% das emissões diretas e indiretas até 2030 e alcançar a neutralidade de carbono até 2050. Para o CFO da ArcelorMittal, “é um caminho sem volta e quem não abraçar de forma verdadeira e genuína vai ficar para trás”.

Incentivos Bilionários à Descarbonização

Tanto no Brasil quanto em mercados internacionais, 2026 é marcado por programas robustos de incentivo à descarbonização empresarial. Em Portugal, o Aviso MPR-2026-01 disponibiliza 165 milhões de euros do FEDER para apoiar investimentos empresariais na redução de consumos de energia e emissões de gases de efeito estufa.

A dotação indicativa global do aviso ascende a 165 milhões de euros, financiados pelo FEDER, podendo o apoio por empresa e por projeto atingir um máximo de 30 milhões de euros. As candidaturas, abertas desde 26 de janeiro de 2026, destinam-se à substituição, adaptação ou introdução de equipamentos, tecnologias e processos de baixo carbono.

O objetivo do programa é claro: reforçar a competitividade das empresas através da melhoria da eficiência energética e da descarbonização dos processos produtivos. São elegíveis operações que promovam ganhos mensuráveis na eficiência energética, incluindo modernização de equipamentos industriais, eletrificação de processos e substituição de tecnologias baseadas em combustíveis fósseis.

Desafios e Riscos da Transição

Apesar dos avanços, a transição não está isenta de obstáculos. No setor de energias renováveis, o Brasil enfrenta desafios operacionais significativos. O fenômeno do curtailment, cortes forçados na geração de energia, continua pressionando empresas eólicas e solares.

Segundo análise do BTG Pactual divulgada em janeiro de 2026, o curtailment seguiu em patamar elevado ao longo do quarto trimestre de 2025, com efeitos diretos sobre a receita e a performance das companhias do setor elétrico. Entre as empresas listadas, os impactos mais expressivos recaíram sobre a CPFL Energia e a Copel.

O setor também enfrenta uma desaceleração nas instalações. Segundo a Abeeólica, em 2025 a instalação de novas usinas eólicas recuou a 2,2 GW, o menor volume desde 2019, e menos da metade de 2023. A expectativa para 2026 é de apenas 1,26 GW de eólicas entrando em operação.

Legado da COP30 e os Desafios de 2026

A realização da COP30 em Belém, concluída em novembro de 2025, consolidou o protagonismo brasileiro na agenda climática global. O evento reuniu 195 países que aprovaram o Pacote de Belém, conjunto de 29 decisões com avanços em temas como transição justa, financiamento da adaptação, comércio, gênero e tecnologia.

Entre as conquistas mais significativas está o lançamento do Fundo Florestas Tropicais para Sempre, mecanismo inédito que mobilizou mais de US$ 6,7 bilhões em sua primeira fase, com endosso de 63 países. O fundo estabelece pagamentos de longo prazo para países que preservam florestas tropicais, criando uma nova economia baseada na conservação.

Com a COP31 marcada para novembro de 2026 em Antalya, na Turquia, a pressão sobre empresas brasileiras para demonstrar avanços concretos na redução de emissões se intensifica. O acesso a financiamentos climáticos e investimentos sustentáveis está cada vez mais condicionado à apresentação de planos de descarbonização claros, com metas factíveis e prazos definidos.

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Investimentos ESG e Acesso a Capital

O mercado financeiro tem sido um dos principais propulsores da agenda ESG. Em 2026, a exigência por dados financeiramente materiais se intensifica. Riscos e oportunidades ESG entram no valuation, no orçamento e na priorização de investimentos. Falar de sustentabilidade sem traduzir impactos em números tornou-se insuficiente.

Empresas com má classificação ESG enfrentam barreiras crescentes ao buscar investimento externo. Companhias que não obtiverem boas pontuações de ESG tendem a ser excluídas dos fundos e índices ESG, algo que já acontece no Brasil. A demanda global por informações ESG mais consistentes e comparáveis tem aumentado, com o amadurecimento das exigências regulatórias e o maior escrutínio dos investidores.

Segundo relatório divulgado pela XP Investimentos em dezembro de 2025, cinco tendências ESG devem orientar investimentos em 2026: expansão da energia nuclear e data centers verdes, evolução dos relatórios ESG e taxonomias sustentáveis, crescimento dos sistemas de armazenamento de energia em baterias (BESS), consolidação de minerais críticos e cadeias sustentáveis, e integração entre IA e sustentabilidade.

Pequenas e Médias Empresas na Transição Verde

A agenda ESG não é exclusiva das grandes corporações. Segundo Vanessa Rinaldi, consultora ESG do Sebrae-SP, a maioria das pequenas e médias empresas não conta com uma área específica para o tema, mas isso não impede a adoção de boas práticas.

Para PMEs, a principal porta de entrada costuma ser a redução de custos. Menos desperdício de energia, matéria-prima e tempo significa mais eficiência e competitividade. A coordenadora do Senac São Paulo, Paula Batich, reforça que o fator decisivo para investir em práticas mais sustentáveis não é o orçamento disponível, mas o comprometimento da liderança.

Tecnologia Como Aliada da Sustentabilidade

A transformação digital é também uma revolução verde. Em 2026, a Inteligência Artificial e a automação de dados são ferramentas indispensáveis para a gestão eficiente de práticas ESG. Empresas utilizam IA para monitorar emissões de carbono, prever riscos ambientais e otimizar o uso de recursos naturais em tempo real.

No Brasil, a tecnológica portuguesa Celfocus desenvolveu uma plataforma digital que permite às empresas calcular a pegada de carbono, gerir iniciativas elegíveis para a emissão de créditos de carbono e participar num marketplace de compra e venda desses créditos. A plataforma possibilita aos promotores de projectos sustentáveis a gestão de iniciativas elegíveis para a emissão de créditos de carbono, acompanhando digitalmente todas as fases, desde a submissão até à validação.

O Futuro Começa Agora

A descarbonização não é mais uma escolha, mas uma necessidade operacional. Empresas que tratam a regulação ambiental como tema restrito à área de sustentabilidade tendem a enfrentar dificuldades operacionais e financeiras. Quando a sustentabilidade entra na planilha, ela entra no orçamento. E quando entra no orçamento, passa a ser priorizada.

O Brasil, com sua matriz energética predominantemente renovável, recursos naturais estratégicos e capacidade de inovação, reúne condições únicas para se consolidar como referência em sustentabilidade empresarial. O desafio está em transformar esse potencial em ação concreta, garantindo competitividade, acesso a mercados e perenidade dos negócios.

Em 2026, não há mais espaço para discursos vazios ou metas distantes. A sustentabilidade se consolida como exigência do presente, e as empresas que anteciparem essas mudanças com dados verificáveis, tecnologia integrada e compromisso genuíno estarão mais bem posicionadas para prosperar na economia de baixo carbono que se desenha globalmente.