A produção global de biogás e biometano vem ganhando espaço nas agendas de energia limpa e sustentabilidade em níveis doméstico e internacional. Relatórios recentes da International Energy Agency (IEA) indicam que a produção combinada dessas fontes de energia renovável deve crescer cerca de 22 por cento entre 2025 e 2030. Esse crescimento é resultado de políticas públicas voltadas à redução de emissões, iniciativas de apoio à produção renovável e mandatos específicos de mistura de biometano em redes de gás natural em países da União Europeia. O desenvolvimento de marcos regulatórios e o fortalecimento da cadeia produtiva são fatores centrais para que esse potencial possa ser concretizado.
Cenário global de produção, gargalos e oportunidades
O relatório da IEA destaca que os volumes globais de produção de biogás e biometano podem subir 22 por cento até 2030 em comparação com 2025, refletindo uma revisão de expectativas e um cenário mais favorável para investimentos em energia renovável. A análise inclui dados que revelam variações na velocidade de crescimento entre regiões, com destaque para Europa, América do Norte e mercados em desenvolvimento na Ásia e América Latina.
Na União Europeia, o foco tem se deslocado progressivamente da simples produção de biogás para a atualização desse biogás em biometano de qualidade adequada para injeção em redes de gás natural. Países como Alemanha, França, Holanda e Dinamarca têm ampliado suas capacidades produtivas, embora as projeções apontem que o bloco pode ficar aquém de suas metas mais ambiciosas. A estratégia REPowerEU estabelece uma meta de produção de 35 bilhões de metros cúbicos de biometano por ano até 2030, mas estimativas indicam que, com base no ritmo atual de expansão, a produção poderá alcançar cerca de 27 bilhões de metros cúbicos nesse horizonte.
Nos Estados Unidos, a produção também está em crescimento acelerado, com projeções indicando que a produção de biometano poderá mais que dobrar até 2030 com base em incentivos regulatórios e políticas de combustíveis de baixo carbono. Mais de 150 plantas de biometano estão em construção, somando-se às centenas já operacionais, com o setor de transporte como principal impulsionador.
Em países emergentes como Índia e Brasil, o contexto é de construção de capacidade e formulação de políticas que reconheçam o valor dessa fonte energética. A Índia, por exemplo, espera um incremento de cerca de 21 por cento na produção total de biogás e biometano até 2030 em comparação com estimativas anteriores. No Brasil, a expansão do setor tem sido impulsionada pelo agronegócio e pelo aproveitamento de resíduos, com projeções que indicam que o país pode responder por uma parcela significativa do biometano global já nos próximos anos, posicionando-se entre os maiores produtores até meados da década.
O relatório da IEA também aponta que apenas cerca de 5 por cento do potencial técnico sustentável global de produção de biogás e biometano está sendo atualmente aproveitado. Esse potencial corresponde a quase um trilhão de metros cúbicos equivalentes de gás natural por ano, o que equivale a cerca de um quarto da demanda mundial de gás natural atual. Isso demonstra a vasta oportunidade de crescimento, especialmente em mercados onde a infraestrutura ainda é incipiente.
Regulação e certificação: mandatos europeus de mistura de biometano
A regulação tem papel central no crescimento da produção de biogás e biometano. Na União Europeia, além das metas de produção energética renovável, políticas específicas têm sido implementadas para incentivar a mistura de biometano em redes de gás natural. Países como França têm estabelecido requisitos de mistura a partir de prazos próximos, obrigando parte do gás distribuído a ser composto por biometano. Esses mandatos geram sinalizações de demanda para produtores e reduzem a dependência de combustíveis fósseis importados.
A implementação de um sistema europeu unificado de certificação de sustentabilidade para biogás e biometano é outro elemento essencial para ampliar a confiança dos investidores. A inexistência de um sistema robusto dificulta a rastreabilidade do atributo ambiental e pode limitar a liquidez de contratos de energia renovável. A harmonização desses sistemas entre os países membros da UE é vista como um passo necessário para integrar eficientemente o biometano ao mercado europeu de energia.
Nos Estados Unidos, a combinação de incentivos fiscais federais e padrões estaduais que reconhecem créditos por baixo teor de carbono aumenta a competitividade do biometano no setor de transporte e em outras aplicações. Esses mecanismos, embora não universais, criam um ambiente regulatório favorável que tem estimulado investimentos privados em produção e infraestrutura.
Em mercados emergentes, a regulação ainda está em desenvolvimento. No Brasil, embora não existam mandatos de mistura universais como na União Europeia, o país tem avançado na construção de políticas que reconhecem o biogás e o biometano como componentes estratégicos da matriz energética e da economia circular. A análise do setor no Brasil em 2025 mostra uma cobertura crescente de notícias e iniciativas ligadas ao tema, refletindo um interesse crescente de stakeholders públicos e privados.
Usos finais: mobilidade, geração de eletricidade e calor industrial
O uso final do biogás e do biometano está diretamente associado à versatilidade dessas fontes como substitutas de combustíveis fósseis. No setor de mobilidade, o biometano comprimido ou liquefeito tem se destacado como uma alternativa de baixo impacto de carbono para frotas pesadas de transporte, ônibus urbanos e veículos corporativos. Essa aplicação é favorecida por políticas que oferecem créditos por desempenho de emissões e por padrões que incentivam combustíveis de baixo carbono em mercados de transporte sustentável.
Na geração de eletricidade e calor industrial, o biogás tem um papel consolidado em muitas regiões, especialmente onde as redes de gás natural ainda não estão amplamente disponíveis. Unidades de geração distribuída permitem transformar resíduos orgânicos em energia elétrica e calor de forma eficiente, respondendo às necessidades locais de energia e contribuindo para aumento da resiliência energética de comunidades rurais e industriais.
Outros usos emergentes incluem integração em sistemas de geração de energia combinada com tecnologias de captura de carbono e produção de hidrogênio verde. Embora seja uma fronteira tecnológica ainda em desenvolvimento, a integração de biogás com soluções de hidrogênio e outros combustíveis sintéticos pode ampliar o escopo de aplicações e contribuir para a descarbonização de setores intensivos em energia.
Conclusão
O crescimento de biogás e biometano até 2030 reflete um movimento global em direção a sistemas energéticos mais sustentáveis e resilientes, impulsionado por políticas públicas e uma crescente demanda por combustíveis renováveis de baixo carbono. A expansão da produção requer não apenas investimentos em tecnologia e infraestrutura, mas também mecanismos regulatórios claros e sistemas de certificação que garantam a rastreabilidade e a credibilidade das reduções de emissões.
Apesar dos desafios, o potencial de produção ainda largamente inexplorado indica que o setor pode desempenhar um papel significativo na matriz energética global. Países que avançarem com políticas estáveis, incentivos econômicos e integração de infraestrutura poderão captar os benefícios ambientais e econômicos dessa fonte renovável, contribuindo para a mitigação das mudanças climáticas e para a segurança energética de longo prazo.







