Imagine um país que gerou, em 2025, mais de três quartos de sua nova eletricidade a partir do sol, do vento e das águas. Pois bem, esse país existe e se chama Brasil. Enquanto grande parte do mundo ainda debate como reduzir a dependência de combustíveis fósseis, o Brasil entra em 2026 numa posição invejável: 84,63% da sua capacidade elétrica instalada já vem de fontes renováveis. Mas, como toda grande transformação, há contradições pelo caminho. E elas são reveladoras.
No mesmo momento em que os dados da ANEEL apontam para um crescimento recorde de 9,1 GW de nova potência em 2026, a energia solar, que foi a estrela da última década, começa a tropeçar em problemas regulatórios, na falta de infraestrutura de transmissão e nos efeitos de juros que beiram 15% ao ano. O que está acontecendo com o setor elétrico brasileiro? E onde isso vai parar?
Uma Matriz que Virou Referência Mundial
Os números são, de fato, impressionantes. Segundo dados do SIGA (Sistema de Informações de Geração da ANEEL), em 1º de janeiro de 2026 o Brasil contabilizou 215.936,9 MW de potência fiscalizada em usinas centralizadas. Desse total, 84,63% corresponde a fontes renováveis como hidrelétricas, eólicas, solares e biomassa.
Para 2026, a ANEEL prevê um acréscimo de 9.142 MW ao sistema, volume 23,4% superior ao resultado obtido em 2025, quando foram adicionados 7.403,54 MW ao parque gerador nacional. Os dados são do Relatório de Acompanhamento da Expansão da Oferta de Geração de Energia Elétrica (RALIE) da própria ANEEL.
Em 2025, 136 usinas entraram em operação comercial. A composição desse crescimento diz muito sobre para onde o Brasil está indo: 63 centrais solares fotovoltaicas (2.815,84 MW), 43 eólicas (1.825,90 MW), 15 termelétricas (2.505,77 MW), 11 pequenas centrais hidrelétricas (199,34 MW) e uma hidrelétrica de 50 MW. Em outras palavras, as renováveis responderam por 76% de tudo que foi instalado no ano.
Para colocar esses números em perspectiva: 9,1 GW de nova capacidade equivale, aproximadamente, à potência da usina de Itaipu. Em um único ano. E com predominância de fontes limpas. O Brasil, nesse quesito, já é um caso de estudo para o mundo.
O Linhão que Completou o Mapa do Brasil
Se há um símbolo do que o setor elétrico brasileiro realizou em 2025, ele tem 725 quilômetros de extensão, 1.390 torres e custou R$ 3,3 bilhões. É o Linhão Manaus-Boa Vista, a linha de transmissão que, em 10 de setembro de 2025, conectou Roraima ao Sistema Interligado Nacional (SIN) e encerrou décadas de isolamento energético.
Roraima era o único estado brasileiro que ainda dependia de usinas termelétricas movidas a óleo diesel para seu abastecimento. Além de caras e poluentes, essas usinas deixavam o estado vulnerável a apagões frequentes, especialmente nos finais de semana, quando a demanda oscilava. A situação era tão crítica que o custo desse sistema era rateado entre todos os brasileiros por meio da Conta de Consumo de Combustíveis (CCC).
Com a energização do linhão, operado pela Transnorte Energia (consórcio formado por Alupar, com 51%, e Eletronorte, com 49%), Roraima passou a receber energia limpa e renovável do SIN, em circuito duplo de 500 quilovolts (kV), passando pelas subestações de Eng. Lechuga (AM), Equador e Boa Vista (RR).
Os impactos são múltiplos. O projeto vai reduzir as emissões de CO₂ em mais de 1 milhão de toneladas por ano com o desligamento gradual das termelétricas. Vai economizar mais de R$ 500 milhões anuais em combustíveis fósseis para o sistema nacional. E vai dar a Roraima capacidade energética cerca de quatro vezes superior à demanda atual do estado, criando condições para o desenvolvimento industrial e até para exportações de energia para países vizinhos como Guiana, Suriname e Venezuela.
O projeto levou quase quinze anos para sair do papel. Leiloado em 2011 pela ANEEL com previsão de entrega em 2015, esbarrou em impasses ambientais e jurídicos, especialmente pelo traçado de 122 km dentro das terras indígenas Waimiri-Atroari. Ao fim, saiu por um valor bem superior ao originalmente orçado, mas o resultado é inquestionável: o Brasil agora é um dos poucos países do mundo com todo o seu território nacional interligado eletricamente.
Energia Solar: o Gigante com os Pés na Lama
A energia solar fotovoltaica foi, sem dúvida, o fenômeno do setor elétrico brasileiro na última década. Em 2024, o país adicionou 15 GW de nova capacidade solar, um recorde histórico. Mas os ventos mudaram. Segundo a ABSOLAR (Associação Brasileira de Energia Solar Fotovoltaica), o país deve adicionar apenas 10,6 GW em 2026, queda de 7% em relação aos 11,4 GW de 2025, que já representavam uma retração de 24% frente ao ano anterior. Será o segundo ano consecutivo de desaceleração.
Para quem acompanha o setor, esse recuo não é surpresa. Ele é resultado de uma combinação de fatores que se acumularam nos últimos dois anos:
- Curtailment sem compensação: grandes usinas solares e eólicas vêm sofrendo cortes de geração impostos pelo ONS quando a rede de transmissão não consegue escoar toda a energia produzida. O problema é que, sem um mecanismo consolidado de ressarcimento pelos megawatt-hora não entregues, os investidores perdem a previsibilidade de receita e recuam nos novos projetos.
- Negativas de conexão na geração distribuída: pequenos e médios sistemas fotovoltaicos instalados em telhados e pequenas propriedades vêm encontrando uma onda crescente de rejeições por parte das distribuidoras, que alegam incapacidade da rede para absorver novos geradores sem causar inversão de fluxo de potência.
- Custo do capital elevado: com a taxa Selic próxima de 14,75% ao ano e juros de crédito para o setor beirando 15%, o custo de financiar um projeto solar subiu de forma expressiva, comprimindo as margens em um segmento altamente competitivo.
- Câmbio e importações: a alta volatilidade do dólar e as alíquotas elevadas de imposto sobre equipamentos fotovoltaicos importados encareceram os projetos e reduziram o apetite dos investidores.
O impacto econômico é significativo. A ABSOLAR projeta R$ 31,8 bilhões em investimentos solares em 2026, queda de 20,5% ante os R$ 40 bilhões estimados para 2025. A geração de empregos no setor também recua: de 396,5 mil novos postos em 2025 para 319,9 mil em 2026. A arrecadação fiscal ligada à cadeia solar deve cair de R$ 13 bilhões para cerca de R$ 10,5 bilhões.
Apesar disso, a fotovoltaica ainda crescerá em termos absolutos. O Brasil deve encerrar 2026 com uma capacidade solar acumulada de 75,9 GW, sendo 51,8 GW em sistemas de geração distribuída (telhados, pequenas propriedades) e 24,1 GW em grandes usinas centralizadas conectadas ao SIN.
O Gargalo de Transmissão: o Calcanhar de Aquiles da Transição
Toda essa expansão de renováveis colide com uma realidade incômoda: a rede de transmissão não acompanhou o ritmo de crescimento da geração. O resultado é paradoxal: usinas prontas, sol e vento disponíveis, mas a energia não consegue chegar aos consumidores porque as linhas estão saturadas.
Para enfrentar esse gargalo, o governo federal planeja dois grandes leilões de transmissão em 2026. O primeiro, previsto para março, deve ofertar cerca de 888 km de novas linhas em 12 estados, com investimentos da ordem de R$ 5,7 bilhões. O segundo leilão, no segundo semestre, promete ser ainda mais robusto: mais de 3.500 km de linhas e investimentos superiores a R$ 20 bilhões.
Além disso, para abril está previsto um leilão inédito no Brasil: o Leilão de Reserva de Capacidade (LRCAP), dedicado exclusivamente à contratação de sistemas de armazenamento de energia em baterias (BESS). Aprovado pela Lei 15.269/2025, o leilão é considerado fundamental para absorver o excedente de geração solar e eólica nos horários de pico de produção, armazenando e despachando nos momentos de maior demanda. Seria o primeiro certame brasileiro desse tipo.
O que os Números Dizem sobre o Futuro
O Brasil que emerge dos dados de 2025-2026 é contraditório, mas vibrante. De um lado, uma matriz elétrica que já é referência global em renováveis, com expansão acelerada e infraestrutura crescendo a passos largos. De outro, um setor solar que tropeça em regulação, infraestrutura insuficiente e custo de capital, sinalizando que crescer rápido demais sem que a base regulatória e de rede acompanhe tem consequências.
Segundo o Balanço Energético Nacional 2025 da EPE, as fontes solar e eólica já respondem juntas por 23,7% de toda a geração elétrica do país. Em 2024, a solar cresceu 39,6% na geração e a eólica avançou 12,4%. E o consumo de energia deve continuar crescendo a uma taxa média de 2,1% ao ano até 2034, pressionado pela expansão econômica, pelo calor extremo e pelo boom de data centers de inteligência artificial que escolhem o Brasil justamente por sua matriz limpa e relativamente barata.
A resposta para os desafios atuais do setor está sendo construída em múltiplas frentes: expansão da transmissão, regulamentação do armazenamento, mecanismos de compensação pelo curtailment e modernização das regras de conexão para a geração distribuída. Não é uma solução simples. Mas o caminho já está traçado.
Um País em Transformação Real
O setor elétrico brasileiro vive, em 2026, uma transformação estrutural que vai muito além dos números. Ele reflete uma escolha estratégica feita ao longo de décadas: investir em fontes renováveis, expandir a rede e incluir toda a população no sistema energético nacional. A integração de Roraima ao SIN foi o capitulo final dessa historia de inclusão.
Os desafios que o setor solar enfrenta não são sinais de fracasso. São os problemas de um mercado que cresceu rápido demais para que a infraestrutura e a regulação acompanhassem. A resposta esta sendo construída em Brasília, nos leiloes de transmissão, na regulamentação do armazenamento e nas negociações sobre compensação do curtailment.
O Brasil que emerge desse ciclo e um pais que, ao mesmo tempo em que enfrenta seus próprios gargalos internos, já e hoje uma referencia global em energia limpa. Com 84,63% de renováveis na matriz e um plano de expansão de quase 10 GW para o ano, o pais segue na direção certa, ainda que tropeços pelo caminho sejam inevitaveis.
A pergunta não e mais se o Brasil vai liderar a transição energética. A pergunta e: a que velocidade vai acelerar?








