A energia que a indústria vai precisar em 2036 já exige decisões hoje

A energia que a indústria vai precisar em 2036 já exige decisões hoje.

Novo estudo do PDE 2036 projeta crescimento do consumo de energia no Brasil e evidencia transformações que precisam entrar no planejamento das empresas e da infraestrutura energética.

Como será a demanda energética brasileira daqui a dez anos? A resposta envolve mais do que estimar quantos megawatts ou quantos combustíveis serão necessários para atender à economia.

Envolve compreender quais setores estarão consumindo energia, quais fontes ganharão participação, como novas tecnologias modificarão os processos produtivos e que investimentos precisarão começar muito antes de 2036.

Em outubro de 2026, o Ministério de Minas e Energia (MME) e a Empresa de Pesquisa Energética (EPE) divulgaram o Caderno de Demanda de Energia do Plano Decenal de Expansão de Energia (PDE) 2036.

O documento projeta crescimento médio anual de 1,8% no consumo final de energia entre 2026 e 2036. Em termos absolutos, a demanda deverá passar de 302 milhões para 362 milhões de toneladas equivalentes de petróleo (Mtep).

As projeções também apontam mudanças na participação das fontes de energia e no perfil de consumo dos diferentes setores econômicos.

Para a indústria, a questão é especialmente relevante: decisões tomadas no presente sobre equipamentos, processos e infraestrutura energética podem determinar as condições de competitividade durante a próxima década.

O crescimento da demanda é apenas uma parte da transformação

Quando um estudo projeta aumento do consumo de energia, a interpretação mais imediata é que o país precisará de maior capacidade de suprimento.

Essa necessidade existe, mas representa apenas parte da análise.

O crescimento econômico modifica o consumo de energia de diferentes maneiras.

A expansão da produção industrial pode elevar a demanda por eletricidade e combustíveis. A adoção de tecnologias mais eficientes pode reduzir a energia necessária por unidade produzida. Mudanças na estrutura da economia também alteram o peso relativo de cada atividade no consumo nacional.

Ao mesmo tempo, determinados processos podem substituir uma fonte energética por outra.

Essa combinação torna o planejamento mais complexo do que uma simples projeção de crescimento percentual.

O PDE 2036 considera diferentes fatores econômicos, tecnológicos e estruturais para avaliar a evolução da demanda.

As projeções, portanto, não representam a repetição automática das condições atuais. Elas apresentam um cenário de referência fundamentado em premissas que poderão se modificar ao longo do período.

Essa distinção é fundamental para compreender a função de um plano decenal.

O documento não determina exatamente o que acontecerá em 2036. Ele oferece uma base técnica para orientar decisões e avaliar possíveis necessidades de expansão energética.

A indústria permanece no centro do consumo energético

Segundo o Caderno de Demanda de Energia, indústria e transportes deverão representar conjuntamente cerca de 62% do consumo final de energia brasileiro em 2036.

O indicador demonstra a relevância desses setores para o planejamento nacional.

No caso da indústria, o consumo energético está diretamente associado às características dos processos produtivos.

Atividades industriais podem demandar eletricidade para motores, acionamentos, automação, sistemas de refrigeração e diferentes equipamentos.

Outras operações dependem de energia térmica para aquecimento, secagem, geração de vapor e processos de transformação de materiais.

Esses usos apresentam requisitos distintos de temperatura, continuidade, disponibilidade e capacidade de fornecimento.

Por isso, a transição energética industrial não pode ser analisada a partir de uma única solução tecnológica.

A escolha das fontes depende das necessidades de cada processo, das características dos equipamentos, das condições econômicas e da infraestrutura disponível.

Em determinadas atividades, a eletrificação pode representar uma alternativa relevante. Em outras, combustíveis gasosos ou soluções térmicas específicas podem continuar desempenhando funções importantes.

A avaliação precisa considerar eficiência, confiabilidade, custos, emissões e viabilidade técnica.

A perspectiva de crescimento energético amplia a importância dessas decisões.

A eletricidade deverá ganhar mais espaço

Uma das principais tendências apresentadas pelo PDE 2036 é o aumento da participação da eletricidade no consumo energético brasileiro.

O estudo projeta que o consumo total de eletricidade, considerando diferentes formas de suprimento, poderá alcançar 979 terawatts-hora (TWh) em 2036.

Esse volume representa expansão média de 3,4% ao ano ao longo do período analisado.

O crescimento projetado supera a taxa média de expansão do consumo final total de energia.

A diferença aponta para uma transformação na composição da demanda.

A eletricidade tende a ganhar relevância em aplicações que atualmente utilizam outras fontes, ao mesmo tempo em que novos equipamentos e atividades econômicas passam a demandar suprimento elétrico.

Para a indústria, esse movimento pode ampliar a necessidade de avaliar capacidade de conexão, infraestrutura interna, disponibilidade de fornecimento e adequação dos equipamentos.

No entanto, maior eletrificação não elimina automaticamente a participação de outros energéticos.

Processos industriais possuem requisitos técnicos específicos, e nem todas as aplicações apresentam as mesmas condições para substituição de combustíveis.

O planejamento adequado exige identificar onde a eletrificação agrega valor e onde outras alternativas permanecem relevantes.

Novos setores também pressionam o planejamento

O crescimento da demanda não será explicado exclusivamente pela expansão de atividades tradicionais.

O PDE 2036 destaca o surgimento de novas cargas associadas a data centers, eletromobilidade e produção de hidrogênio por eletrólise.

Segundo o estudo, essas atividades deverão consumir conjuntamente cerca de 47 TWh de eletricidade em 2036.

O número corresponde a uma projeção mais de dez vezes superior à demanda estimada para essas aplicações em 2026.

A importância desses novos consumidores ultrapassa o volume absoluto de energia.

A localização das cargas, a continuidade do consumo e os requisitos de infraestrutura podem influenciar o planejamento elétrico.

Data centers, por exemplo, apresentam características de operação distintas das de muitas instalações industriais tradicionais.

Projetos de produção de hidrogênio por eletrólise podem demandar volumes expressivos de eletricidade, dependendo de sua capacidade e configuração.

A expansão da mobilidade elétrica também modifica a distribuição do consumo em determinados segmentos.

Essas transformações reforçam a necessidade de coordenar decisões de investimento, disponibilidade energética e desenvolvimento de infraestrutura.

Novos consumidores não representam apenas mais demanda. Podem representar novos padrões de utilização do sistema energético.

Eletricidade, gás natural e a diversificação das fontes

O Caderno de Demanda de Energia também projeta mudanças na participação relativa dos diferentes energéticos.

Embora os derivados de petróleo continuem relevantes, a eletricidade e o gás natural deverão ganhar participação na matriz de consumo.

O movimento reflete transformações nas atividades econômicas, nos processos produtivos e nas alternativas tecnológicas disponíveis.

Na indústria, a diversificação energética precisa ser avaliada conforme as características de cada operação.

O gás natural pode atender aplicações térmicas e processos nos quais combustíveis gasosos apresentam vantagens operacionais.

O biometano também merece atenção nessa discussão.

Produzido a partir do tratamento e da purificação do biogás, o biometano pode atender a determinadas aplicações energéticas, desde que cumpra os requisitos técnicos e regulatórios aplicáveis.

Seu aproveitamento industrial depende de fatores como disponibilidade regional, especificações de qualidade, infraestrutura de transporte ou distribuição e condições econômicas do fornecimento.

Por essa razão, o potencial do biometano não deve ser confundido com uma previsão automática de adoção em todos os segmentos industriais.

Sua inserção depende de projetos tecnicamente viáveis e de condições de mercado compatíveis.

O PDE também aponta perspectivas de maior utilização de gás natural e biometano em aplicações específicas de transporte.

A diversificação de fontes, portanto, deve ser compreendida a partir de condições concretas de uso, e não como uma substituição uniforme de toda a matriz energética.

A transição energética industrial exige decisões diferentes para cada processo

Reduzir emissões e aumentar eficiência são objetivos relevantes para diferentes setores industriais.

Entretanto, o caminho para alcançá-los não é necessariamente o mesmo.

Uma unidade industrial com grande demanda por vapor apresenta desafios diferentes daqueles de uma instalação cujo consumo está concentrado em motores elétricos.

Da mesma forma, a disponibilidade de infraestrutura energética varia entre regiões.

A escolha entre tecnologias depende de critérios que precisam ser avaliados conjuntamente.

O primeiro deles é a adequação técnica.

Uma alternativa energética deve ser capaz de atender às exigências de temperatura, potência, continuidade e qualidade necessárias à operação.

O segundo envolve a viabilidade econômica.

Investimentos em equipamentos, custos operacionais, manutenção, contratos de suprimento e eventuais modificações de infraestrutura influenciam a decisão.

O terceiro está relacionado ao desempenho ambiental.

A redução de emissões deve ser avaliada com metodologias apropriadas, considerando as características das fontes utilizadas e os limites definidos para a análise.

Também é necessário considerar segurança operacional, maturidade tecnológica e riscos associados à implantação.

Uma estratégia energética consistente não se baseia apenas na escolha de uma fonte com determinado atributo ambiental.

Ela busca combinar desempenho técnico, eficiência, confiabilidade e resultados mensuráveis.

O planejamento de 2036 já influencia investimentos atuais

Uma década pode parecer um horizonte distante para decisões empresariais.

Entretanto, ativos industriais e projetos de infraestrutura frequentemente apresentam ciclos de investimento e operação que ultrapassam vários anos.

A substituição de equipamentos, a modernização de instalações e a adaptação de processos produtivos exigem planejamento.

Algumas decisões envolvem projetos de engenharia, obtenção de licenças, contratação de fornecedores e interrupções programadas da produção.

Outras dependem de infraestrutura externa, como redes de energia elétrica, disponibilidade de combustíveis e instalações logísticas.

Isso significa que uma transformação projetada para 2036 pode exigir investimentos iniciados muitos anos antes.

A análise de cenários energéticos contribui para identificar possíveis necessidades futuras e evitar decisões incompatíveis com o desenvolvimento esperado da operação.

Por exemplo, a expansão de uma unidade industrial pode ser acompanhada de estudos sobre a capacidade de atendimento elétrico e as alternativas para suprimento térmico.

Uma empresa que avalia substituir equipamentos pode considerar não apenas os custos presentes, mas as condições de operação e fornecimento ao longo da vida útil dos novos ativos.

O objetivo não é antecipar com precisão absoluta todas as mudanças.

É construir decisões suficientemente robustas para diferentes cenários.

A energia que a indústria vai precisar em 2036 já exige decisões hoje.

Infraestrutura e competitividade industrial estão conectadas

A disponibilidade de energia é um dos fatores que influenciam o funcionamento das atividades produtivas.

Entretanto, competitividade energética envolve mais do que volume de suprimento.

A confiabilidade, a previsibilidade dos custos, a eficiência dos processos e as condições de infraestrutura são igualmente relevantes.

Para setores intensivos em energia, variações nos custos e limitações de fornecimento podem afetar decisões de produção e investimento.

A expansão energética planejada precisa considerar essas características.

O crescimento da demanda industrial e o surgimento de novas cargas reforçam a necessidade de articulação entre infraestrutura, tecnologia e planejamento econômico.

Da perspectiva das empresas, decisões sobre fontes energéticas devem dialogar com objetivos de produtividade, continuidade operacional e gestão de riscos.

Da perspectiva do setor energético, é necessário compreender a evolução das necessidades dos consumidores para estruturar investimentos compatíveis com os cenários de expansão.

Essa relação evidencia por que os estudos decenais são relevantes mesmo para organizações que não atuam diretamente na geração de energia.

A energia constitui um componente estruturante de inúmeras cadeias produtivas.

O papel da eficiência energética

Uma discussão sobre expansão da demanda não estaria completa sem considerar a eficiência energética.

Aumentar a eficiência significa obter determinado resultado produtivo com menor consumo de energia, mantidas as condições relevantes de comparação.

Em ambientes industriais, isso pode envolver melhorias em sistemas motrizes, recuperação de calor, automação, manutenção e aprimoramento de processos.

As possibilidades variam conforme a atividade.

Medidas de eficiência podem contribuir para reduzir custos operacionais e melhorar o aproveitamento dos recursos disponíveis.

Também podem modificar as necessidades futuras de infraestrutura.

Entretanto, os efeitos dependem da escala de adoção, do desempenho efetivo das medidas e da evolução da produção.

Uma indústria pode reduzir seu consumo energético por unidade produzida e, ainda assim, aumentar a demanda total caso sua produção cresça significativamente.

Por isso, indicadores de intensidade energética e consumo absoluto precisam ser analisados separadamente.

Essa distinção é importante para interpretar as projeções nacionais.

O consumo de energia resulta da interação entre atividade econômica, estrutura produtiva e eficiência tecnológica.

A transformação industrial pode envolver simultaneamente expansão produtiva, modernização dos equipamentos e mudanças na composição das fontes utilizadas.

Da projeção à decisão de investimento

O PDE 2036 apresenta um cenário de referência que pode apoiar avaliações estratégicas.

Para investidores, desenvolvedores de projetos e empresas industriais, seu valor está na capacidade de organizar informações sobre possíveis mudanças da demanda.

Isso não significa que os números projetados devam ser utilizados isoladamente para justificar investimentos.

Cada empreendimento exige estudos próprios de mercado, engenharia, riscos e viabilidade econômico-financeira.

As projeções nacionais fornecem contexto, mas não substituem análises específicas de localização, capacidade, acesso à infraestrutura ou condições comerciais.

Também é importante considerar que cenários podem ser revisados diante de mudanças econômicas, tecnológicas e regulatórias.

O planejamento energético é um processo contínuo.

Nesse sentido, a publicação de novos cadernos temáticos e a realização de consultas públicas contribuem para ampliar a base técnica das discussões.

A versão do PDE 2036 divulgada em outubro de 2026 permanece em consulta pública até 6 de novembro.

As contribuições recebidas poderão subsidiar o aprimoramento do documento.

A próxima década começa nas decisões de agora

As projeções do PDE 2036 mostram que o Brasil deverá consumir mais energia e apresentar mudanças relevantes na composição de sua demanda.

A eletricidade tende a ampliar sua participação, novos consumidores ganharão importância e indústria e transportes permanecerão centrais para o planejamento energético.

Essas transformações precisam ser analisadas de maneira integrada.

O desenvolvimento de infraestrutura, a modernização industrial, a eficiência energética e a diversificação das fontes não são processos independentes.

São dimensões conectadas de uma mesma transformação econômica e tecnológica.

O desafio para empresas e investidores está em compreender como essas tendências se relacionam com as necessidades concretas de cada atividade.

Mais do que prever o consumo de 2036, o planejamento permite identificar decisões que precisam começar antes.

A energia da próxima década será resultado das escolhas de infraestrutura, tecnologia e investimento realizadas ao longo dos próximos anos.