Em estudo apresentado durante COP30, governo revela que clima não é questão ambiental, é questão de sobrevivência econômica do país
No dia 18 de novembro de 2025, durante a COP30 em Belém, o Ministério do Planejamento e Orçamento do Brasil fez uma apresentação que deveria ecoar muito além dos salões de negociação climática. Um documento de 219 páginas, intitulado “Estudo Estratégico dos Impactos Econômicos da Mudança do Clima no Brasil”, colocava números precisos em uma discussão que há muito tempo alternava entre abstrações científicas e discurso ambientalista descolado da realidade econômica.
Os números, traduzindo pesquisa coordenada pelo pesquisador Régis Rathmann e realizada em parceria com o Banco Interamericano de Desenvolvimento, revelam algo que economistas sabem mas políticos preferem ignorar: as mudanças climáticas não são um problema ambiental que ocorre à margem da economia. Elas são um vetor estrutural de perda econômica, desigualdade regional e instabilidade produtiva que atingirão o cerne do modelo econômico brasileiro.
Se o mundo seguir uma trajetória de aquecimento de 4 graus Celsius até o final do século, o Brasil perderá entre 10,3 trilhões e 17,1 trilhões de reais em PIB até o ano 2050. Para contextualizar essa cifra em linguagem que qualquer pessoa consegue compreender: o PIB brasileiro em 2024 foi de 11,7 trilhões de reais. O país poderia perder o equivalente a sua riqueza anual inteira, uma, duas ou até três vezes. Não são projeções de ambientalistas apocalípticos. São simulações de modelos econômicos de equilíbrio geral computável, as mesmas ferramentas utilizadas pelo Banco Mundial e pelo Fundo Monetário Internacional.
A Desigualdade Regional Que Ninguém Quer Enfrentar
Mas o número agregado de 17 trilhões esconde uma verdade ainda mais incômoda. Os impactos não serão distribuídos uniformemente pelo Brasil. O país que já concentra enorme desigualdade regional verá essa desigualdade aprofundada de forma estrutural pela crise climática.
No cenário de 4 graus de aquecimento, o Centro-Oeste brasileiro perderia 126% do seu PIB projetado para 2050. Leia isso de novo. Cento e vinte e seis por cento. O economista normalmente fala em termos de “perda de 10%, 20% do PIB regional”. Aqui estamos falando de um cenário onde a região simplesmente deixaria de gerar riqueza. Tocantins veria seu PIB reduzido em 172%, Goiás em 166%, Mato Grosso em 158%.
O Norte brasileiro enfrentaria perda de 97% do PIB projetado. O Nordeste, 96%. Enquanto isso, o Sudeste, mais diversificado economicamente e menos dependente de atividades sensíveis ao clima, perderia 74% do seu PIB. O Sul, 54%.
Isto não é aleatório. É porque as regiões mais pobres do Brasil são exatamente aquelas mais dependentes de atividades sensíveis ao clima: agropecuária no Centro-Oeste, agricultura no Nordeste, energia hidroelétrica e agropecuária no Norte. Quando o clima muda, estas regiões sofrem primeiro, sofrem mais, e levam mais tempo para se recuperar.
A mensagem implícita é devastadora: você não pode alcançar redução de desigualdades regionais enquanto deixar as mudanças climáticas avançarem sem controle. Estes são objetivos economicamente contraditórios. Escolha uma coisa ou outra.
Os Empregos Que Desaparecerão Silenciosamente
O estudo projeta que o Brasil poderia perder 4,4 milhões de postos de trabalho entre 2025 e 2050 em um cenário de aquecimento de 4 graus. Novamente, as regiões mais pobres sofrem desproporcionalmente. Centro-Oeste perderia 7% dos empregos projetados para 2050, Norte 5%, Nordeste 4%. Sul e Sudeste perderiam em média 2%.
Estes não são números abstratos que economistas discutem em seminários acadêmicos. Estes são 4,4 milhões de pessoas que não terão renda para alimentar suas famílias. São cidades que deixarão de recolher impostos sobre folha de pagamento, perdendo capacidade de manter serviços públicos. São regiões inteiras que entrarão em ciclos de maior pobreza.
Um trabalhador no Nordeste lendo isto em 2025 está vivenciando uma realidade que o estudo apenas projeta matematicamente: aquecimento já afeta onde ele pode trabalhar, quanto ele ganha, se consegue trabalhar o ano todo. O estudo simplesmente quantifica isto para 2050.
A Agricultura Que Alimenta o País: Perdendo Produtividade
O estudo dedica análise especial à agricultura porque é impossível falar de economia brasileira sem falar de agronegócio. E as notícias não são boas. Culturas estratégicas como soja, milho, feijão, cana-de-açúcar, café e laranja enfrentariam redução significativa de produtividade em cenários de aquecimento.
O Mato Grosso, maior produtor de soja do Brasil, veria produtividade reduzida entre 16% e 29% até 2050. São Paulo veria produtividade de cana-de-açúcar cair 20%. No Nordeste, Maranhão veria produtividade cair 14,5%, Piauí 10%, Bahia 10,3%.
Isto tem implicação mundial. O Brasil é responsável por percentual gigantesco da produção agrícola global. Quando o clima aqui muda, a produção de alimentos global sofre. Os preços dos alimentos sobem. Países importadores de alimentos enfrentam insegurança alimentar. E o Brasil, que poderia ter sido o celeiro do mundo, vê sua vantagem competitiva corroída pelo clima.
O Custo Invisível da Água
Um dos custos menos óbvios mas potencialmente mais severos é o acesso à água. O estudo projeta aumento de 15% no custo de água no cenário de 4 graus de aquecimento. Nordeste seria particularmente afetado. Maranhão, Piauí, Bahia, estados que já enfrentam periodicamente secas extremas, veriam custos de água disparar ainda mais.
Este é um custo que não aparece em manchete de jornal. Não é um furacão espetacular, não é enchente viral em rede social. Mas é a lenta, constante redução da capacidade das pessoas de pagar pela água para beber, cozinhar, regar plantações. É a privatização de um recurso que era considerado infinito. É o aumento de conflitos por acesso à água em regiões que já enfrentam escassez.
O Outro Lado: O Que Ganhamos Agindo
O estudo, porém, não é apenas apocalíptico. Ele também quantifica os benefícios de agir. Se o mundo mantiver aquecimento limitado a 1,5 graus Celsius, o objetivo do Acordo de Paris, o Brasil ganharia 6,7 trilhões de reais adicionais de PIB até 2050 em comparação ao cenário de 2 graus de aquecimento.
Seis vírgula sete trilhões de reais. Isto é mais que a metade do PIB anual do Brasil em 2024. Não é custo. É ganho. É riqueza que seria gerada.
Os maiores beneficiários seriam exatamente as regiões que mais sofreriam com inação. Norte ganharia 50% em PIB regional, Nordeste 39%, Centro-Oeste 34%, em comparação com cenários de maior aquecimento. A ação climática criaria aproximadamente 1 milhão de empregos adicionais entre 2025 e 2050, principalmente nos setores florestal e agropecuário. Os preços dos alimentos cairiam. A produtividade da economia como um todo aumentaria 5,4 percentuais comparado ao cenário de inação.
Em outras palavras, não agir é muito mais caro que agir. Drasticamente mais caro. A narrativa comum de que transição energética e ação climática custam dinheiro é invertida pelos dados. A ação climática é um investimento. A inação é o desperdício de recursos.
A Produtividade Como o Grande Multiplicador
Um aspecto que passa despercebido nas manchetes mas é crucial para entender o impacto de longo prazo é a produtividade. No cenário de 4 graus de aquecimento, a Produtividade Total dos Fatores, que mede a eficiência com que uma economia transforma insumos em produtos, cresceria apenas 3,2% acumulado até 2050.
No cenário de 1,5 graus, com descarbonização acelerada, a PTF cresceria 9,1% acumulado. A diferença de 5,4 percentuais parece pequenininha até você perceber que isto significa que a inação climática reduziria a velocidade com que toda a economia brasileira melhora sua eficiência.
Um país que cresce com baixa produtividade é um país que cresce lentamente, que não consegue aumentar renda per capita, que fica mais pobre em termos relativos. Isto não é um problema de 2050. É um problema que começaria a se manifestar já nos anos 2030, reduzindo gradualmente a capacidade de inovação, de modernização, de investimento em educação.
Por Que Isso Importa Agora
O estudo foi divulgado em novembro de 2025, dias antes do Brasil se comprometer em COP30 com meta de reduzir 59% a 67% das emissões até 2035. Funcionou como subsídio técnico e político para que a negociação acontecesse com informação sobre o que estava em jogo.
Porém, o valor real do documento está em sua capacidade de traduzir uma questão que parecia ambiental em uma questão fundamentalmente econômica. Sustentabilidade não é puta isolada de meio ambiente. Adaptação climática é planejamento econômico, política industrial, desenvolvimento regional.
Um governo que quer crescimento econômico inclusivo tem que considerar mudanças climáticas. Um empresário que quer investir em infraestrutura agrícola tem que considerar mudanças climáticas. Um trabalhador que quer segurança de emprego tem que considerar mudanças climáticas.
Este estudo quantifica por que. Os números não mentem. Nem deixam espaço para ambiguidade interpretativa que políticos adoram usar. Ou você age, e ganha 6,7 trilhões de reais em PIB. Ou você não age, e perde 17 trilhões de reais.
Essa é a escolha que o Brasil conhece agora. A questão é o que fará com ela.







