ESG e energia renovável: como transformar discurso em prática real

ESG e energia renovável: como transformar discurso em prática real

Por que ESG e energia renovável viraram pauta em todo lugar

Nos últimos anos, ESG deixou de ser jargão de mercado financeiro para virar linguagem comum em conselhos, reuniões de diretoria e até conversas de corredor. Empresas de todos os portes passaram a falar de metas de carbono, energia renovável e sustentabilidade, impulsionadas por investidores, clientes e reguladores cada vez mais atentos. Ao mesmo tempo, a energia limpa, com destaque para a solar e a eólica, ganhou status de símbolo máximo dessa transformação, associada a futuro, inovação e responsabilidade ambiental.​

O problema é que, quando saímos do slide de apresentação e olhamos para a realidade, o cenário é bem menos brilhante. Pesquisas mostram que a maioria dos brasileiros diz valorizar energia renovável, mas uma parcela muito menor de fato adotou soluções como painéis solares, contratos de energia limpa ou programas estruturados de eficiência energética. É exatamente nesse “abismo” entre discurso e prática que este artigo se aprofunda e é aí que está a principal oportunidade para sua empresa se diferenciar.​

O abismo entre o ESG que se declara e o ESG que se pratica

O que as pesquisas revelam sobre percepção e adoção
Diversos levantamentos recentes apontam um padrão recorrente: cerca de três em cada quatro pessoas afirmam valorizar o uso de energia renovável, mas apenas aproximadamente um quarto, ou menos, efetivamente utiliza ou investe em fontes limpas no dia a dia. Há uma espécie de “ESG aspiracional”, bastante forte no discurso, e um “ESG operacional”, bem mais tímido quando se olha para decisões concretas de consumo, investimento e infraestrutura.​

Esse descompasso aparece tanto em residências e pequenos negócios quanto em grandes empresas. É comum encontrar organizações que exibem metas climáticas em relatórios, mas continuam comprando energia sem critérios de origem, deixando de aproveitar oportunidades de redução de custos e emissões. Para quem trabalha com gestão, marketing ou governança, esses números acendem um alerta: o que está faltando não é narrativa, e sim execução.

Por que tanta gente apoia energia limpa, mas adota tão pouco
Quando o assunto é energia renovável, o discurso favorável costuma esbarrar em um conjunto bem concreto de barreiras. Entre as mais citadas em estudos e reportagens estão: percepção de alto custo inicial, falta de informação confiável, dificuldade de acesso a crédito e desconhecimento sobre modelos de contratação mais flexíveis. Em muitos casos, o retorno do investimento é bom – mas o medo de errar na escolha do fornecedor ou o receio de “mexer na conta de luz” travam a decisão.​

No ambiente corporativo, ainda há um componente adicional: disputa por orçamento. Projetos de energia limpa concorrem com demandas urgentes de TI, expansão comercial, capacitação, entre outros. Sem um business case bem construído – que mostre economia, redução de risco e ganho de reputação – a pauta de energia costuma perder espaço, mesmo em empresas que falam muito de ESG.

Como as empresas podem sair do discurso e entrar na prática

Primeiro passo: medir consumo e emissões de verdade
Nenhuma estratégia séria de ESG em energia começa sem dados. O ponto de partida é mapear quanto a empresa consome, de onde vem essa energia e qual é a pegada de carbono associada a esse uso. Isso envolve, no básico:​

  • Organizar faturas de energia por unidade, centro de custo ou operação;
  • Entender o mix de fontes (quando possível) e tarifas aplicadas;
  • Calcular emissões associadas ao consumo (escopo 2) e, em alguns casos, de combustíveis próprios (escopo 1).

Esse mapeamento fornece uma base sólida para tomar decisões embasadas e conectar o discurso a métricas tangíveis.

Segundo passo: desenhar um plano de energia renovável factível
Com o diagnóstico em mãos, o próximo movimento é converter a intenção em ações concretas. Em vez de anunciar uma meta genérica como “ser mais sustentável”, o ideal é definir marcos claros, por exemplo: “atingir X% de energia renovável contratada em 3 anos”, “reduzir o consumo em Y% até 2028”, ou “migrar unidades‑chave para contratos de energia limpa”.​

  • Nesse momento, entram as principais opções práticas:
  • Geração distribuída solar (no telhado ou em usinas remotas);
  • Contratos de energia renovável de longo prazo (PPAs);
  • Programas de eficiência energética em iluminação, ar‑condicionado, motores e processos;
  • Uso de biogás/biometano em operações que ainda dependem de combustíveis fósseis.​

Essas iniciativas podem ser implantadas de maneira escalonada, permitindo que as empresas testem, ajustem e ampliem investimentos conforme resultados.

ESG e energia renovável: como transformar discurso em prática real

Energia renovável como alavanca de competitividade, não apenas de reputação

Redução de custos e previsibilidade em vez de só “marketing verde”
Um erro comum é encarar a energia renovável apenas como ferramenta de reputação, sem associá-la a ganhos concretos de competitividade. A médio prazo, empresas que investem em fontes limpas conseguem estabilizar custos energéticos, diminuir exposição à volatilidade de tarifas e melhorar margens, especialmente em setores intensivos em energia, como indústria, varejo de grande porte, data centers e agronegócio.​

Além disso, investidores e grandes clientes exigem provas concretas de descarbonização, não apenas promessas. Empresas que demonstram a adoção efetiva de energia limpa e a redução de emissões ganham vantagens competitivas na seleção de fornecedores e no acesso a capital.​

Evitando o greenwashing: transparência acima de tudo
À medida que o ESG se populariza, cresce o risco de greenwashing: prometer mais do que se entrega ou exagerar ações pontuais. Em energia, isso pode significar anúncios grandiosos enquanto a empresa mantém práticas antiquadas e sem metas claras.​

A solução consiste em ser transparente quanto ao ponto de partida, às metas e ao progresso real; publicar dados de consumo, emissões e fontes de energia; e comunicar avanços verdadeiros sem exageros.

O papel do poder público e das políticas de incentivo

Por que políticas certas destravam a adoção de energia limpa
Políticas públicas bem desenhadas são decisivas para acelerar a adoção da energia renovável: incentivos fiscais, linhas de crédito específicas, marcos regulatórios estáveis e programas de eficiência em prédios públicos criam ambiente favorável para investimentos maiores.​

Programas para biogás e biometano, metas para combustíveis renováveis e planejamento de redes de transmissão criam segurança regulatória essencial para decisões de gasto e crescimento.​

Como empresas e gestores podem se beneficiar dos programas existentes
Muitas organizações desconhecem ou subutilizam linhas de financiamento específicas, como créditos para energia solar, programas para uso de biogás, fundos de inovação e projetos de retrofit em prédios públicos e privados.​

Explorar e estar atento a chamadas públicas e linhas de crédito verdes pode acelerar projetos e reduzir riscos financeiros.

ESG no dia a dia: do grande plano às pequenas decisões

O que empresas de diferentes portes podem fazer agora
A transformação do discurso em prática não exige megaprojetos iniciais. Algumas ações simples já causam impacto:

  • Mapear e priorizar unidades ou processos de maior consumo;
  • Implementar projetos-piloto de energia solar e eficiência em sites estratégicos;
  • Inserir critérios de origem da energia e pegada de carbono em contratos;
  • Treinar equipes para usar dados de consumo como KPI de desempenho.​

Como envolver colaboradores e consumidores na transição
Embora decisões de investimento sejam estratégicas, a cultura ESG se constrói com o engajamento diário de colaboradores. Campanhas internas, metas por área, bonificações ligadas a economia de energia e projetos que suscitem participação são cruciais.​

Externamente, consumidores valorizam marcas transparentes que detalham suas ações reais, com conteúdos educativos e comunicação aberta.

Do ESG aspiracional ao ESG mensurável

A verdadeira diferença entre quem só fala e quem age em ESG está na capacidade de transformar valores em processos, metas e ações regulares. Com tantas ferramentas, modelos de negócio e fontes de informação disponíveis, o desafio é agir de forma consistente, medindo, planejando e comunicando com transparência.

O momento é de transformar intenção em resultados concretos, firmando um compromisso real com energia renovável e sustentabilidade.