O Brasil vive um dos momentos mais decisivos de sua história energética. Com uma matriz elétrica já majoritariamente renovável, cerca de 88% da geração elétrica vem de fontes limpas, segundo dados da Empresa de Pesquisa Energética (EPE) o país agora enfrenta um novo desafio: financiar a expansão sustentável de sua infraestrutura, diversificar a matriz e garantir segurança energética em meio à transição global para a economia de baixo carbono.
De acordo com o Brazil Transition Factbook 2025 da BloombergNEF, o país precisa investir mais de US$ 700 bilhões até 2050 para atingir suas metas de neutralidade de carbono. Só em energia solar e eólica, estima-se que sejam necessários US$ 15 bilhões por ano até o final desta década. Apesar da dimensão do desafio, há uma oportunidade única: o Brasil reúne condições naturais, maturidade regulatória e apetite de investidores para liderar essa transformação.
Um mercado em expansão, mas ainda concentrado
A International Energy Agency (IEA) coloca o Brasil entre os cinco países que mais expandiram a capacidade de geração renovável em 2024, impulsionado pela energia solar fotovoltaica, que cresceu 34% no último ano. O país já soma mais de 40 GW de potência solar instalada, segundo a ANEEL.
Entretanto, a concentração do investimento em grandes players e o alto custo de capital para pequenos e médios empreendimentos ainda são obstáculos. Um estudo publicado no National Center for Biotechnology Information (NCBI) identifica que barreiras financeiras e burocráticas dificultam o acesso de novos investidores ao setor. O estudo destaca que, enquanto grandes empresas conseguem linhas internacionais de crédito verde, pequenos produtores e cooperativas dependem de programas públicos, muitas vezes com trâmites lentos e recursos limitados.
Marcos regulatórios e o papel da política pública
O arcabouço legal brasileiro tem avançado, especialmente após a promulgação do Marco Legal da Geração Distribuída (Lei 14.300/2022), que criou regras claras para a geração de energia em residências, comércios e indústrias. Esse movimento atraiu novos investidores e deu previsibilidade ao setor.
O Renewable Energy Laws and Regulations Brazil 2026, guia comparativo internacional de regulação energética, aponta que o país possui um dos marcos mais sólidos da América Latina, mas ainda carece de estabilidade tributária e segurança jurídica. Mudanças frequentes em incentivos fiscais e programas de financiamento — como o Finame Energias Renováveis e o BNDES Finem — podem gerar incertezas e afastar investidores estrangeiros.
Além disso, o relatório da BloombergNEF destaca a necessidade de modernizar o setor de transmissão, hoje um dos gargalos da expansão. Em 2024, 17% da energia gerada no Nordeste não chegou ao sistema nacional por falta de capacidade de escoamento. A solução passa por novas linhas de transmissão e investimentos em armazenamento, áreas que exigem capital intensivo e regulação adequada.
Onde estão os recursos e quem os financia
Segundo a Climate Policy Initiative (CPI), o fluxo de financiamento internacional para o Brasil em energias limpas atingiu US$ 1,5 bilhão por ano entre 2021 e 2023, um salto de 25% em relação ao triênio anterior. Desse total, 61% vieram de dívida comercial e 35% de capital próprio, demonstrando forte participação privada.
Os principais financiadores são bancos multilaterais, como o BID, o Banco Mundial e o IFC, além de fundos climáticos e green bonds. Em 2024, o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) anunciou um programa de R$ 20 bilhões em crédito verde voltado a projetos de geração solar e eólica, com foco em pequenas e médias empresas.
Já o mercado de títulos verdes também avança rapidamente. De acordo com a B3, o volume de emissões sustentáveis no Brasil ultrapassou R$ 60 bilhões em 2024, sendo o setor de energia responsável por 47% desse total.
Armazenamento e redes inteligentes: o próximo passo
O crescimento acelerado das fontes intermitentes, como solar e eólica, exige soluções de armazenamento e redes inteligentes (smart grids) para equilibrar o sistema. O relatório da EPE
em parceria com o World Economic Forum destaca que o Brasil precisará triplicar a capacidade de armazenamento até 2030 para garantir estabilidade.
Além disso, a digitalização da rede elétrica — com sensores, automação e medidores inteligentes — pode reduzir perdas técnicas e melhorar a eficiência operacional. Estima-se que esse avanço possa economizar R$ 10 bilhões anuais até 2035, segundo o estudo “Smart Grid Development in Emerging Economies” publicado pela IEA.
Oportunidades e gargalos
A combinação de abundância de recursos naturais, maturidade técnica e avanço regulatório cria um cenário promissor, mas há gargalos importantes. A burocracia para licenciamento ambiental e a demora em liberar conexões à rede nacional continuam sendo entraves.
A Associação Brasileira de Energia Solar Fotovoltaica (ABSOLAR) aponta que há mais de 14 GW de projetos parados aguardando autorização ou conexão. Outro desafio é o custo de capital: as taxas de juros reais no Brasil ainda estão entre as mais altas do mundo, o que encarece o financiamento de longo prazo.
Para mitigar esses riscos, especialistas defendem o fortalecimento de instrumentos de mitigação cambial e garantias soberanas. O modelo do Renewable Energy Performance Platform (REPP), usado no Reino Unido e na África, é apontado como referência para reduzir o custo do capital de risco em mercados emergentes.
Parcerias público-privadas e o papel dos estados
Estados e municípios têm desempenhado papel crescente no avanço das energias limpas. O município do Rio de Janeiro inaugurou em 02/11 o projeto Solário Carioca, uma usina solar de 5 MW instalada sobre o antigo aterro sanitário de Santa Cruz, estruturada como PPP (concessão administrativa) pela Companhia Carioca de Parcerias e Investimentos (CCPar) com investimento estimado de aproximadamente R$ 45 milhões. O projeto contou com parceria internacional da C40 Cities e da agência alemã GIZ, por meio do programa Cities Finance Facility (CFF) para apoio à transição energética urbana.
No município de Fortaleza (CE), a prefeitura lançou edital para PPP de energia solar em escolas e creches, com investimento privado estimado em cerca de R$ 52 milhões e economia prevista de R$ 38,4 milhões ao longo do contrato, para atender 468 unidades da rede municipal de ensino.
Canal Solar
Esses casos demonstram que as PPPs municipais podem se tornar vetores importantes para mobilizar capital privado, ocupar áreas degradadas ou infraestruturas subutilizadas, e promover governança, inovação e energia limpa em escala local.
O Brasil na corrida global da transição energética
Com a COP30 se aproximando, o país está no centro das atenções. A International Renewable Energy Agency (IRENA) estima que o Brasil pode se tornar exportador líquido de energia limpa até 2035, se acelerar investimentos em hidrogênio verde e biometano.
O Brazil Transition Factbook reforça esse potencial, destacando que o país detém mais de 80% da capacidade de biomassa da América Latina e pode capturar até 3% do mercado global de hidrogênio verde. Para isso, será necessário mobilizar recursos públicos e privados e estabelecer parcerias internacionais que garantam previsibilidade e competitividade.
O financiamento da transição energética brasileira avança, mas ainda precisa vencer desafios estruturais. O país tem os ativos, o conhecimento e a vontade política — mas depende da consolidação de instrumentos financeiros modernos, estabilidade regulatória e integração entre os setores público e privado.
O caminho para uma economia de baixo carbono passa por governança, inovação e capital paciente. O Brasil está bem posicionado para liderar essa jornada, desde que transforme seu potencial em uma estratégia de longo prazo que una eficiência econômica, inclusão social e sustentabilidade ambiental.







